25 de setembro de 2017

A vida das pequeníssimas coisas


A VIDA DAS PEQUENÍSSIMAS COISAS

Um Golias chamou-me micróbio.
Não foi o primeiro. Não será o último.
É natural: a água não tem cabelos,
não se pode segurar, as palavras
são um rio, um rio só pára quando é mar.
E ainda há a questão da minha impureza
lexical, da insubmissão formal e
uma grande desnecessidade de aval.
No fundo sabem, eu tenho recursos
estranhos nos bolsos como David e
os heróis da bd - vêm assim como
as fortunas de um bolinho chinês que
se esfarela. Não desfazendo das frases que
orientais vão ao forno,
os meus invisíveis recursos secretos
têm raízes no céu, como eu que sou
uma inexorável máquina de escrever,
mil vezes mais pequena que
qualquer micróbio,
ínfimas partículas de letras no comboio do tempo,
lugar de origem e de destino
escritos no bilhete. É Deus quem dá.
Nós? O que somos nós, se não formos isto que
liga o Céu e a Terra,
o Totem que vivo respira e
o seu avesso que o Tabu sufoca?