13 de junho de 2017

Isto o que é?

isto o que é?

Vou mudar de casa - vendi a minha, que por acaso até era bastante decente, o ano passado. No dia um de Agosto. Via-se o mar e a serra da varanda do quarto e da varanda da sala. Da janela da cozinha, o jardim maduro com a piscina em frente, e a buganvília roxa, um nó de ramos e flores pérgola afora, à direita. A biblioteca verde, sim, verde, e fui eu quem a pintou prateleira a prateleira, como é possível, fazia horas extra como quarto de visitas. Mas quais visitas?
Estava a quinhentos metros da praia - medi.
Raramente usava carro, só quando chovia ou não tinha outro remédio. A minha linda Peugeot bastava-me. Durante anos fui feliz ali, com o Cão e aquele grande silêncio que fazia o mar ouvir-se pela chaminé da lareira com as gaivotas a ladrar-lhe por cima, e foi só nessa altura, pouco depois de me ter mudado, em pleno Novembro, que percebi porque lhes chamavam cães do mar.
No Inverno, parecia que as ondas me queriam entrar pela porta, o Cão rosnava-lhes de olhos semi-cerrados, deitado ao comprido no braço do sofá, e assim mesmo, sem medo daquele grande lobo, a maresia comia o verniz, a madeira, oxidava o puxador e o que mais apanhasse. Na Primavera vá de reparar tudo. Houve o ano que tive de pôr aquele chumbo de porta blindada a levar uma folha nova tal não foi o estrago. E o ano em que mandei fazer uma estante à face da lareira, a carreguei de livros de poesia, de número atrás de número de NYREV e sabe Deus o mais que assinava e devorava, e enfiei para lá uma televisão fora de moda que mal via a menos que ligasse o dvd. O que gostei daquela estante onde tinha de me empoleirar para chegar ao fundo da prateleira de cima... E dos filmes em looping na velha TV? Na altura fazia planos de comprar a poesia toda, logo a começar pela da Assírio e avançando depois horizonte adiante até ao princípio do tempo. Quem tem a poesia toda? Não sei. Mas num aniversário ofereci-me a Rosa do Mundo para mentir que era eu.
Apesar de ter mandado pintar a casa quando foi comprada, era novinha em folha e estava lambida de um branco que deitava sombras cinzentas, tive de a mandar pintar logo de novo para corrigir o disparate da cor escolhida. Ficou do exacto tom. Sempre fui uma exacta apesar das pilhas de livros pelas cadeiras, mesas, sofás. A exactidão faz-me bem. A minha mãe dizia que abrir os meus armários lhe dava nervos: quais militares alinhados, as minhas chávenas todinhas de asa à direita... Mas ó. Tinha pássaros e ramos e ninhos e flores, insectos e folhas desenhados à mão livre, assim, em locais inesperados, mal se viam até que apareciam súbitos, junto ao rodapé, ou ao lado da porta, a entrar em voo pela janela, e apanhavam toda a gente de surpresa. Era a bicheza local, uma pega azul, duas poupas bebés, borboletas, um louva a Deus, a cistanca, os juncos...  É para que saibam que não se sabe realmente. Pois não? E o verdadeiro ninho de andorinhas lá em cima dispensou-me do Bordalo excepto na cozinha.
Cresci numa casa. Nunca me habituei a apartamentos. Aquele apartamento era uma casa a fingir no último piso: as escadas para o andar de cima, a ausência de esconsos, os tectos altos, a vista desafogada, a ilusão do jardim, emprestavam-lhe o ar de casa casa. E o acesso era por galeria. A galeria, vá-se lá saber se por ser mais ilusionismo, desta vez o de um passeio de acesso à entrada, deixava-me feliz. E o silêncio. Acho que já disse o silêncio. Silêncio suficiente para ser acordada todas as manhãs pela passarada na guarda de ferro da varanda. Era ali que vinham. De todas as guardas de todas as varandas, era ali que reuniam ao toque de alvorada enquanto o Cão se espreguiçava e eu fingia que dormia. Ai que coisa boa ter um Cão, pássaros na varanda e uma almofada onde adormece todo o ruído, e não ter futuro. Não esperar nada. Viver hoje. Só hoje. Só um dia de cada vez como aquela gente diz nos filmes nas reuniões dos A.A..
Isso mudou. Foi sorrateiramente. Primeiro uma coisa. Outra. Pensava e amanhã? Quando o tempo começa a ganhar densidade, existir não chega. Faltam pessoas. Uma ideia de vida. A perspectiva de ser além de existir. E mais outra. Quando se juntaram todas as coisas pareceu que um dia mudou quando foram tantos dias para mudar, a correr subterrâneos. E foi-se o silêncio e com ele foi-se ser e mais nada. Não gosto de dividir paredes. Muito menos quando se tornam esterofónicas, histericofónicas. E tenho um defeito - quero dizer, tenho mil. Um grande defeito, por ser mansa, não se percebe, nem eu percebo, que a coisa vai e vai e vai e um dia de tanto ir não volta. Não há nada a fazer. Fechei a porta. Nunca mais.
No dia um de Agosto, pouquinhos anos depois do nunca mais, vendi a minha casa. Porém a saga, a saga de arranjar casa em Lisboa já estava em curso há que tempos. E foi por causa dela, ali, a desempacotar caixotes de isto o que é? que encontrei a escritura original do apartamento de antes deste onde vivi com o meu lindo Cão, o apartamento de antes de haver O Cão, a escritura do meu primeiro lugar de pessoa crescida de dezoito anos, tantos, meu Deus, onde outra eu viveu uma vida que misteriosamente foi minha e onde nada aconteceu como fora planeado ou sequer imaginado. Nada. Só surpresas de rodapé ou a entrar pela janela.
Agora vou para a minha terceira casa fora de casa. Planos? Só a cor exacta das paredes e a aguarela que encomendei do meu Cão.

11 de junho de 2017

A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, O Cão e eu

A CEGONHA, O RINOCERONTE, A BICICLETA, O CÃO E EU
Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.
No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.
Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe que sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço... Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.
Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós... Só percebi quando os vi a serrar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Pelo preço da bala.
Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta - qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d' Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma construção antiga nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A a natureza a dar show e eu espectadora feliz. Quando volto a olhar para a direita, encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?
Já não moro no paraíso. O meu querido Cão já morreu – se neste instante chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro de nariz no vidro. 
Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos. 

3 de junho de 2017

Felicidades hipotéticas

Já aqui contei: desconheço Pedro Mexia. Mas, ó diabo, de há uns tempos para cá parece-me um velho (des)conhecido, um daqueles com quem falo sozinha como as pessoas que respondem boa-noite ao apresentador do telejornal, assim tipo, “durante os anos sessenta”? mas o homem é um iogurte?! Veja lá isso, caro Pedro. E sim, tem razão, também "isento de tudo o Chiado."
Numa destas janelas terá estado a minha felicidade hipotética.

felicidades hipotéticas
Estava a ler o Fim da Aventura, de Pedro Mexia, na Revista E, sobre o novo livro do velho O’ Neill, a pensar que se estivesse ainda em casa da minha avó, e fosse a passar diante dela de livro na mão e lhe dissesse, li tudo e não me cansei – código para hei-de relê-lo uma fartura de vezes –, ouviria por resposta, isso não me parece grande conversa para quem lê até os rótulos dos sabonetes. E sorriria. Ela e eu. A minha avó tinha, também, o humor cítrico de O’Neill - quando o li pela primeira vez, já me estava entranhado e eu nem sabia.
Como não sabia que iria acabar à porta de sua casa, na Rua da Saudade, 23, ali mesmo onde destaparam um teatro romano, onde se sobe ou desce a pique e se tem vista para a parede da frente ou para o rio atrás. Foi uma felicidade hipotética.
Andava à procura de casa. Perdidamente como os muitos que procuram casa em Lisboa. Penso que foi no fim do Outono passado que dei com ela. Ele. Um apartamento pequeno: cozinha, sala, escritório e quarto comunicantes cabiam numa área contada ao centímetro e sem uma única zona de arrumos. Tinham-lhe feito uma daquelas recuperações que são uma lambidela de má cosmética, mas enfim… Chão e portas afagados, micro casa de banho com tudo o que é mais barato e agora se compra como quem vai à mercearia, uma retrete, um autoclismo de plástico, uma base duche em meia-lua, e uma cozinha de poliéster com encastrados, se faz favor, e ponha na conta – fiado é o nome original do cartão de crédito. A despeito disto, a Rua da Saudade não tem saída para o trânsito e, por comparação com a vizinhança, acaba por ser, de longe, a menos movimentada. Pensei, olha, menos mal.
O pior veio depois.
Ao lado da porta, à direita e à esquerda, em cima e em baixo, sei lá eu que fiquei logo encandeada, placas afirmativas de residência no prédio. Ary dos Santos e O’Neill. O’ Neill?! Quero lá saber da má cosmética… venha a meia-lua, venha mesmo a lua-nova, se foi bom para ele, é bom para mim. Fazer o quê? Os bons poetas, de preferência mortos e bem mortos, são a minha fraqueza. Se me quiserem deslumbrada como um veado antes de ser atropelado, mostrem-me uma primeira edição lida e relida de um deles ou de um dos meus maridos ou coisa assim - é preciso perceber que hoje fiquei a pasmar para o Steiner impresso! Casado há 62 anos e não é comigo, vá-se perceber um mistério destes… quero lá saber do homem do detergente Surf!
E agrava-se. Quando era pequena, mesmo pequena, pré-alfabetizada, era muito dada ao drama, teatreira, cheia de véus e anéis, imaginações e palavras fabulosas que usava, vá, com originalidade que hoje não me apetece cascar na infância. A natureza de uma pessoa não muda. Até se pode deixar de andar enfeitado como uma Scheherazade, mas o bicho está lá dentro. Que é como quem diz, ah, está explicado – sim, sempre fui cosmológica, é uma das minhas virtudes inúteis. Estava explicado não ter conseguido casa antes. Estava explicado isso e estava explicado tudo, a redenção é, por natureza, absoluta: tinha de ir parar ali, à Rua da Saudade, por osmose poética. Era o destino. Eram os véus e os anéis desvendados e justificados.
Marco a visita logo decidida a ficar com a casa. Confirmo a marcação. Que sim. Com certeza. E volto a confirmar. De véspera, à noite, informam-me mal e porcamente por sms que a casa está alugada. Veado atropelado, quero saber como, porquê, se a cozinha de poliéster ainda nem está montada, se me garantiram que a primeira marcação era a minha... Ai, do cosmos ao caos à velocidade de um topo de gama, afinal era o destino, a tal felicidade hipotética que se ia à viola e sem letra do vizinho Ary dos Santos…