31 de maio de 2017

Mark my words



mark my words
Talvez não fossem ainda onze da manhã. E já não podia mais quando fechei as janelas, baixei a persiana, e seja o que Deus quiser. Não durmo de dia. Era pequenina e não dormia de dia. Tenho uma incompatibilidade diurna com o sono - e com o ruído, para dizer a verdade. E assim mesmo deitei-me. 
Há coisas de que o corpo se recorda antes do pensamento. Foi há muitos anos. Tinha trabalhado todo o dia, treinado no intervalo do almoço e havia outro treino antes do jantar. Os limites também precisam de respeito. Penso que nesse dia não os respeitei. Depois desse último treino, cheguei ao carro, sentei-me e deixei cair a cabeça no volante. Sentia o corpo a tremer do esforço - nem o duche tinha aliviado o excesso de tensão. E desato a soluçar como um miúdo. Era só cansaço. Nessa altura, lá pelas as oito e meia da noite, nove, ali mesmo, lembrei-me: era o meu aniversário.
Deitei-me esta manhã. Não dormi, claro. E algo em mim recordou aquele ponto baixo. Acho que há uma idade em que podemos repetir os mesmos erros de sempre. Ou um tempo. E outra idade em que já não. Outro tempo. Levantei-me, almocei, enfiei-me no computador e segui pela tarde fora. Antes do jantar, fui fazer uma busca. Casas isoladas só para um, na Comporta, ali mesmo entre a terra e o mar dentro, nem um ai, não quero ouvir gente nem televisões nem carros, não quero saber de nada, nem ver vivalma. E encontro. A preços sauditas.
Não faz mal. Um dia faço um poema para esta casa isolada só para um que Tom Waits levantou para eu descansar na voz de Amy Lavere -  and we'll catch mocking birds.