28 de maio de 2017

Kill Bill state of mind

Quieto quase demais...

Kill Bill state of mind
Sempre li de tudo. Bem, agora menos. Mas quando era pequena lia o que viesse, fosse lá o que fosse a que jogasse a mão. Com a música a mesmíssima coisa. Tive sorte. Tanto com o esmero deseducativo quanto com a escola de gerações onde vivi ensanduichada, e mais ainda com a posição ocupada pela casa onde cresci no mapa familiar. E havia os extras, os figurantes: a amiga da prima da cunhada também aparecia com a sua voz distinta das outras, a blusa, o cabelo, as três mil informações novas nos gestos, nas feições, uma história inteira, assim, do nada. Adorava. Na verdade, era uma canibal. Acho que comia as pessoas dos pés à cabeça só por gostar de gente. Pena tinha eu de não enfiar em casa quem via da janela e com quem conversava antes de me levarem para dentro contra vontade. Tudo me fascinava. O mundo era um raio de um prodígio e as pessoas a maravilha das constelações. Perduravam-me depois de desaparecerem, de saírem porta fora ou seguirem pela rua. Estou mesmo convencida de que estão todas aqui, em looping, um segredo onde entro quando me dá na cabeça, ou quando me chamam, sei lá.
Sei é que havia umas pasmosas dissonâncias. Quem as trouxe? A amiga da prima da cunhada? Joe Dassin. Billy Joel. E o álbum duplo, a banda sonora de Jesus Christ Superstar, filme a que assisti enfiada na frisa com a minha tia para quem as idades indicativas da fita eram um despropósito subordinável ao seu desejo da minha companhia. Escusado será dizer que sabia os LP de cor. Todos. Ainda sei. Mesmo o confutatis maledictis que não tem nada a ver com isto e conseguiu vir cá parar. Tinha uns headphones enormes para o meu tamanho e proporcionais aos anos setenta. Sentava-me no chão, a olhar para A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, que tinha comprado com a minha própria semanada. Um poster entre duas baguettes de plástico.
E isto porque ainda há pouco, logo a seguir ao jogo, estava a fazer um zapping indiferente, dei com Julie  & Julia  na cena da mudança de casa logo ao início do filme, e apeteceu-me perguntar, porque é que os apartamentos, mesmos os maus, ficam giros nos filmes? Nem era pela resposta. Essa eu sei. É o cabrão do cenógrafo. Era só pela conversa. Apetecia-me. E vai-me o pensamento e começa a cantar could we start again, please. Só esta linha. Uma vez. Duas. Escrevi um email. Continuou. Três. Apetecia-me. E começar do princípio também. E de repente, mais um bocadinho: I think you've made your point now, you've even gone a bit too far to get the message home.
A vida está sempre certa. Até irrita como gets the message home. Estou tão farta que só me resta mudar a começar de onde estou.