8 de abril de 2017

Não conheço outra coisa

Nem uma pessoa consegue vir ao de cima...

Não conheço outra coisa
e não é que eu seja assim tão agarrada à vida, apenas não conheço outra coisa. E a morte dura que se farta - tenho tempo, não me atrai.
Mas há dois ou três dias, estava na esplanada a almoçar, a Primavera em forte, azul de postal, vistas de fazer inveja à Região de Turismo, tinha no prato umas belas bochechas de porco em vinho tinto com o arroz armado em pudim flan e um penacho de tomilho a nascer-lhe no meio, ao lado as batatas fritas congeladas - ficaram os dois intocados, claro, o flan com penacho de capacete oitocentista e as batatas - e eu a pensar: raio, porque não fazem umas migas de espargos a acompanhar as bochechas e se deixam de arroz em forma de pudim? Com tanta boa batata, que é lá isto?! Arroz e batata? Verde nada, olha-me o enfardanço...
Enquanto isto, o azul a enfiar-se-me pelos olhos adentro e eu já meio afogada, dou por mim cheia de desapego ao postal, às bochechas, lixe-se o arroz em formas e as fábricas de congelados, uma paz de corpo a boiar e zás, uma estranha em mim não sente nem pensa, de alto a baixo percebe, podia morrer sem espernear e sem remorsos e o que não escrevi, tivesse escrito. É irrelevante.
Foi aqui que vim ao de cima. O sentimento de me deixar ir partiu.
É irrelevante.
Tenho andado com esta irrelevância nos bolsos para todo o lado desde esse dia. Deito-me e levanto-me com ela. Talvez o relevo se obtenha só por continuidade. Assim como um visto biológico, um carimbo, toma lá, tens relevo quando tens dependentes. Qualquer bicho mamífero e saudável cuida das crias. É-se relevante quando se é amado. Preciso. Ou então, um relevo civilizacional, sei lá, olha, aquele ali descobriu a cura de um terror qualquer.
Sem equívocos, continuo a sonhar com templos de kung-fu, penso no Cão, vejo-o na minha imaginação livre da idade e da doença, a correr, enfim, se é inútil, despropositado, infantil, eu penso. Continuo a pasmar-me com a grandíssima maturidade de toda a gente e eu nada. Contudo sei, qualquer coisa se afogou ali, no postal, ao almoço quando a Primavera deu em forte no azul.
O tempo passa. Martelo as teclas. Aceito que é irrelevante. Uma maneira simpática de deslocar o verbo ser da primeira pessoa.