24 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado iii - Natal de 2016

PONTO DE INTERROGAÇÃO
Estou à mesa a pensar na inutilidade das palavras diante
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos 
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve, 
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana, 
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron, 
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps, 
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.