15 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado - i

Deve ser esta a famosa dança do sol e dos sete véus...
Postais de Belgrado - i

Mercado Bajloni

Se descer a rua, passo por uma casa de câmbio - dá-me jeito, só tenho euros e aqui, na carteira, a vida conta-se em dinares.
Dinheiro trocado. Boa. Vinte e tal metros e uma pastelaria jovem, pequena, de fabrico próprio. Sem centrifugadora, não tenho sumo verde ao acordar. Quero lá saber... Estou em Belgrado e há-de haver um sumo de laranja fresco a condizer com este frio seco sequíssimo que engana o céu azul e o sol alto das oito e meia da manhã: frio eslavo dum raio que se enfia pelos rins adentro.
Ao pedir o sumo e o café na caixa de pré-pagamento, ao balcão, penso seriamente em desgraçar-me: há folhados por todo o lado a exibirem-se, vaidosões, na vitrine. E pão com quinhentos mil cereais, cada um de sua cor. Lembro-me logo da minha avó: o cereal engorda o gado. Mas os folhados, meu Deus que uma mulher não é de ferro… lindos, as folhas soltinhas, sem gordura, só o brilho dourado do forno e da manteiga. Ainda por cima, folhados de queijo branco e espinafres. É verdade. Podia chamar-me com justiça Maria Café. Maria Broccolini. Ou Maria Espinafres. Não sou Cristo no deserto. À tentação, digo sim.
A menos de cinco minutos, o mercado Bailoni - pronto, Bajloni. A minha primeira visita, na minha primeira manhã belgradina.
Diabo de lugar vivíssimo debaixo do sol imaculado. Aberto. Bancas a perder de vista. Os vegetais, que beleza, o bordado da rama fina e leve das cenouras apetece tocar e levar para casa – é um mercado de produtores. Não serão todos, mas muitos são. Passeio. Vejo. Ouço. Encho a manhã de verbos comestíveis em saladas, frutos, sopa. E do prodigioso kajmak que não é queijo, nem coalho, creme nem requeijão – se escrever kaimak, alguém se ofende?
Este é o mercado Bajloni. Com uma história que passa por Popov - pois é, esse mesmo, o espião. E pelo Estoril. Ó… mal sabia eu que Portugal ficava mesmo aqui ao lado.
Sim, as flores também são para comer: os meus olhos