21 de outubro de 2016

Perfume

PERFUME

O céu, cinzento desta maneira,
tampa de tacho,
cai sobre nós e um dia…
Hoje não. Hoje armou-se-me
o Amor em Primavera e fui
cheirar-te. Não a ti, propriamente dito.
Ao teu perfume. Avancei clara
mais que o sol perfumaria adentro,
a direito, um raio de luz igual ao fundo,
o teu perfume – ah cacete, isto de ser mulher
é encontrar o Graal num tester!
Na verdade, odeio-te. Mas sou
como Pessoa me escreveu,
a maior indisciplina interior
junta à máxima disciplina exterior,

e por isso nunca os meus lábios abririam
no seu botão de rosa, calão,
toda a liberdade é do intelecto,
é do verso, o poema é a inclusão
da vida, de todas as formas de vida,
e das palavras que a vida pariu, umas e outras,
e as que ficam a meia geografia.
Selecta, o nome adulto para bem comportada,
porte-se bem, ouviu, seja sempre uma senhora,
borrifo o cartão, as gotas de perfume no ar…
Não estás no perfume, essa volatilização sublimada
do corpo.
E não estás nas tuas palavras, esse espelho do pensamento
processado.
Não estás e eu odeio-te no verbo não.
Respirei bem aquele pedaço de papel. E joguei-o fora.
Não gostou? Quer testar outro?
Como se isso fosse possível,
testar outro… pois sim. Como?
Não é o coração um cabrão de um animal
doméstico, fiel, um cão?