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| Oh que lindo Livro Amarelo!... |
EM TODO O ESPLENDOR
DA SUA GLÓRIA
O que há no Cântico dos Cânticos que atravessa os séculos e
sendo tão de ontem se faz de hoje? Penso que seja a ideia do tempo dos inícios
e a sua matriz amorosa onde as fronteiras se desfazem ou transpõem diante da
urgência dos amantes: a de serem amados e se darem e se pertencerem. Aliás,
neste poema dialógico, o coro, os guardas, enfim, quaisquer terceiros se diluem
diante destes amantes que encerram em si, no amor que se têm e no que se
desejam, as propriedades intemporais do próprio amor.
A Amada e o Amado são o casal primeiro e último, são quem
somos quando primeiro amamos e quem desejamos ser depois da utopia amorosa que
a paixão constrói e o dia-a-dia destrói, quando já o mundo deixou de ser dual e
os terceiros, pessoas, trabalhos, dias nos são igualmente essenciais. Talvez
também por isso, no poema, se recupere o tema do jardim como o vimos desde a
poesia do antigo Egipto, e onde regressa o jardim edénico, o mesmo que
encontramos depois na Ilha dos Amores camoniana, onde a paixão se deixa colher
e de onde, obrigatoriamente, sempre seremos expulsos e para onde, obrigatoriamente,
sempre faremos o caminho de volta.
Então, o que há no Cântico dos Cânticos que luz sobre o
tempo, é a expressão da natureza do amor no que ele tem de perene, de para
sempre, em todo o esplendor da sua glória.
Quem é o autor deste Cântico superlativo entre todos, desde
o seu título? Será Salomão e por ele será a Amada, Sulamita, a de Salomão?
Salomão terá tido oitocentas esposas e concubinas,
casamentos políticos e camas de desejo, mulheres com quem terá partilhado a sua
sabedoria, o seu poder, os seus aposentos, o seu declínio e por fim, até perda
da Graça Divina com a entrega aos muitos deuses das suas tantas esposas e
concubinas. Terá sido uma entre as oitocentas, esta mulher primordial? E terá
sido a filha do Faraó com quem casou e num verso com a clareza dessa
proveniência lhe refere a beleza? Será o Cântico dos Cânticos um dos registos das
festas desse casamento? Terá a sua encenação feito parte das celebrações?
Não sabemos. Sabemos que há matéria poética comum entre o
Cântico dos Cânticos e as outras poéticas vizinhas, mais e menos próximas.
Receber o convite de Manuel S. Fonseca para fazer uma versão
do Cântico dos Cânticos, foi nada menos do que um susto e uma alegria. Penso
que todos temos, de pequenos, planos secretos de almas infantis que crescem
connosco mas só têm lugar nos nossos desejos e nos nossos silêncios. São
inconfessáveis pelas suas próprias misteriosas razões. Um dos meus desejos,
agora realizado, era este, o de fazer uma versão do Cântico dos Cânticos. Para
o concretizar, apoiei-me nas seguintes versões inglesas, francesas e
portuguesas do Cântico: New International Version (NIV); King James Version (KJV); New
Living Translation (NLT); Orthodox Jewish Bible (OJB); La Bible de Jérusalem
(BJ); Cântico dos Cânticos de Salomão, segundo a edição de 1821, tradução de Padre António Pereira de Figueiredo; Cântico dos Cânticos, tradução,
introdução e notas de José Tolentino Mendonça. Também no Bebedor Nocturno,
Poemas Mudados para o Português, de Herberto Helder e nos Poemas de Amor do
Antigo Egipto traduzidos por Hélder Moura Pereira.
Há um rasgo de medo quando um texto que é um desejo vem na
nossa direcção, porque o amamos e queremos fazer-lhe justiça, é um e se, e mais
outro, e se for antes assim… Mas o trabalho poético, e o de uma versão poética,
também é a aceitação amorosa de que ficamos aquém do além tão desejado e
perseguido. Que os leitores possam amar o Poema como amamos o Amor, com as suas
imperfeições.
5 de Setembro de 2016
Eugénia de Vasconcellos
