25 de outubro de 2016

Amanhã, nas livrarias


"Este Livro Amarelo junta o Cântico dos Cânticos, de Salomão, e o Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Louÿs. O que faz, no mesmo livro, um texto canónico da Bíblia, escrito talvez 500 anos antes de Cristo, ao pé de um texto obsceno desde a primeira linha, escrito na segunda década do século XX por um irrecomendável erotómano francês? Juntos, constituem uma obra de exaltação e exacerbação erótica únicas.

Diga-se: o Cântico dos Cânticos de Salomão lê-se e é, se nos deixarmos arrebatar pelo belíssimo pé da sua letra, uma sensualíssima celebração lírica do amor. Encostados ao pé da sua letra vemos que é clara e distinta a primeira imagem desse livro breve. Revela-nos uma boca de mulher que se abre e, macia, pede: «Beija-me com os beijos da tua boca, /amor melhor do que o vinho.»
O luminoso lirismo do Cântico dos Cânticos é a apologia de um desejo sexual indissociável do impulso amoroso, a apologia de uma plenitude amorosa e sexual, espiritual e física, vivida com intencionalidade social e pessoal. 

O Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, escrito em 1915, na sua hiperbólica regulamentação da sexualidade – da cozinha ao quarto, da igreja ao museu, da cama do amante ao Senhor Presidente da República – ataca com dor e raiva o que Pierre Louÿs entendia ser a hipocrisia amorosa e sexual do seu tempo. A irrisão iconoclasta dos seus conselhos é a sua forma de se insurgir contra as convenções e os costumes que sufocam e castram ab ovo a paixão pura e o desejo inocente que, como matéria dos solilóquios da amada, do amado, e das filhas de Jerusalém, nos exaltam e consolam no Cântico dos Cânticos. 

A abjecção do Manual e os seus extremos escatológicos, essa linguagem obscena e a sua desbragada violência, expressam a revolta de quem não encontra no seu mundo e no seu tempo lugar para a expressão lírica do impulso amoroso ou para a celebração do Belo na catedral íntima do seu corpo ou do corpo amado.

A Guerra e Paz juntou estes dois textos. O Cântico dos Cânticos, de Salomão, surge numa versão poética de Eugénia de Vasconcellos. Segue-se o Manual de Civilidade para Meninas, texto de linguagem crua e revoltada que Pierre-Félix Louÿs escreveu há pouco mais de cem anos e que Manuel S. Fonseca traduziu para esta edição sem tabus. E é também Manuel S. Fonseca que justifica, num longo texto, e num grafismo inesperado, porque é que estas duas criações literárias devem estar juntas.

Um livro para ler onde? Em praça pública? No museu? Em silêncio ou em gritada euforia? Para já estão no recato de um livro de capa rasgada e amarela, como de amarelo estão pintadas todas as faces do miolo."