30 de outubro de 2016

A sunday kind of love

A SUNDAY KIND OF LOVE

Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse sunday kind of love. 
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto 
somos nós:
uma existência de papel.

26 de outubro de 2016

Bonjour Mundo!

[...]
twenty four karat magic in the air
head to toe soul player
[...]


25 de outubro de 2016

Em todo o esplendor da sua Glória

Oh que lindo Livro Amarelo!...



EM TODO O ESPLENDOR DA SUA GLÓRIA

O que há no Cântico dos Cânticos que atravessa os séculos e sendo tão de ontem se faz de hoje? Penso que seja a ideia do tempo dos inícios e a sua matriz amorosa onde as fronteiras se desfazem ou transpõem diante da urgência dos amantes: a de serem amados e se darem e se pertencerem. Aliás, neste poema dialógico, o coro, os guardas, enfim, quaisquer terceiros se diluem diante destes amantes que encerram em si, no amor que se têm e no que se desejam, as propriedades intemporais do próprio amor.

A Amada e o Amado são o casal primeiro e último, são quem somos quando primeiro amamos e quem desejamos ser depois da utopia amorosa que a paixão constrói e o dia-a-dia destrói, quando já o mundo deixou de ser dual e os terceiros, pessoas, trabalhos, dias nos são igualmente essenciais. Talvez também por isso, no poema, se recupere o tema do jardim como o vimos desde a poesia do antigo Egipto, e onde regressa o jardim edénico, o mesmo que encontramos depois na Ilha dos Amores camoniana, onde a paixão se deixa colher e de onde, obrigatoriamente, sempre seremos expulsos e para onde, obrigatoriamente, sempre faremos o caminho de volta.

Então, o que há no Cântico dos Cânticos que luz sobre o tempo, é a expressão da natureza do amor no que ele tem de perene, de para sempre, em todo o esplendor da sua glória.

Quem é o autor deste Cântico superlativo entre todos, desde o seu título? Será Salomão e por ele será a Amada, Sulamita, a de Salomão?

Salomão terá tido oitocentas esposas e concubinas, casamentos políticos e camas de desejo, mulheres com quem terá partilhado a sua sabedoria, o seu poder, os seus aposentos, o seu declínio e por fim, até perda da Graça Divina com a entrega aos muitos deuses das suas tantas esposas e concubinas. Terá sido uma entre as oitocentas, esta mulher primordial? E terá sido a filha do Faraó com quem casou e num verso com a clareza dessa proveniência lhe refere a beleza? Será o Cântico dos Cânticos um dos registos das festas desse casamento? Terá a sua encenação feito parte das celebrações?

Não sabemos. Sabemos que há matéria poética comum entre o Cântico dos Cânticos e as outras poéticas vizinhas, mais e menos próximas.

Receber o convite de Manuel S. Fonseca para fazer uma versão do Cântico dos Cânticos, foi nada menos do que um susto e uma alegria. Penso que todos temos, de pequenos, planos secretos de almas infantis que crescem connosco mas só têm lugar nos nossos desejos e nos nossos silêncios. São inconfessáveis pelas suas próprias misteriosas razões. Um dos meus desejos, agora realizado, era este, o de fazer uma versão do Cântico dos Cânticos. Para o concretizar, apoiei-me nas seguintes versões inglesas, francesas e portuguesas do Cântico: New International Version (NIV); King James Version (KJV); New Living Translation (NLT); Orthodox Jewish Bible (OJB); La Bible de Jérusalem (BJ); Cântico dos Cânticos de Salomão, segundo a edição de 1821, tradução de Padre António Pereira de Figueiredo; Cântico dos Cânticos, tradução, introdução e notas de José Tolentino Mendonça. Também no Bebedor Nocturno, Poemas Mudados para o Português, de Herberto Helder e nos Poemas de Amor do Antigo Egipto traduzidos por Hélder Moura Pereira.

Há um rasgo de medo quando um texto que é um desejo vem na nossa direcção, porque o amamos e queremos fazer-lhe justiça, é um e se, e mais outro, e se for antes assim… Mas o trabalho poético, e o de uma versão poética, também é a aceitação amorosa de que ficamos aquém do além tão desejado e perseguido. Que os leitores possam amar o Poema como amamos o Amor, com as suas imperfeições.



5 de Setembro de 2016
Eugénia de Vasconcellos


Amanhã, nas livrarias


"Este Livro Amarelo junta o Cântico dos Cânticos, de Salomão, e o Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Louÿs. O que faz, no mesmo livro, um texto canónico da Bíblia, escrito talvez 500 anos antes de Cristo, ao pé de um texto obsceno desde a primeira linha, escrito na segunda década do século XX por um irrecomendável erotómano francês? Juntos, constituem uma obra de exaltação e exacerbação erótica únicas.

Diga-se: o Cântico dos Cânticos de Salomão lê-se e é, se nos deixarmos arrebatar pelo belíssimo pé da sua letra, uma sensualíssima celebração lírica do amor. Encostados ao pé da sua letra vemos que é clara e distinta a primeira imagem desse livro breve. Revela-nos uma boca de mulher que se abre e, macia, pede: «Beija-me com os beijos da tua boca, /amor melhor do que o vinho.»
O luminoso lirismo do Cântico dos Cânticos é a apologia de um desejo sexual indissociável do impulso amoroso, a apologia de uma plenitude amorosa e sexual, espiritual e física, vivida com intencionalidade social e pessoal. 

O Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, escrito em 1915, na sua hiperbólica regulamentação da sexualidade – da cozinha ao quarto, da igreja ao museu, da cama do amante ao Senhor Presidente da República – ataca com dor e raiva o que Pierre Louÿs entendia ser a hipocrisia amorosa e sexual do seu tempo. A irrisão iconoclasta dos seus conselhos é a sua forma de se insurgir contra as convenções e os costumes que sufocam e castram ab ovo a paixão pura e o desejo inocente que, como matéria dos solilóquios da amada, do amado, e das filhas de Jerusalém, nos exaltam e consolam no Cântico dos Cânticos. 

A abjecção do Manual e os seus extremos escatológicos, essa linguagem obscena e a sua desbragada violência, expressam a revolta de quem não encontra no seu mundo e no seu tempo lugar para a expressão lírica do impulso amoroso ou para a celebração do Belo na catedral íntima do seu corpo ou do corpo amado.

A Guerra e Paz juntou estes dois textos. O Cântico dos Cânticos, de Salomão, surge numa versão poética de Eugénia de Vasconcellos. Segue-se o Manual de Civilidade para Meninas, texto de linguagem crua e revoltada que Pierre-Félix Louÿs escreveu há pouco mais de cem anos e que Manuel S. Fonseca traduziu para esta edição sem tabus. E é também Manuel S. Fonseca que justifica, num longo texto, e num grafismo inesperado, porque é que estas duas criações literárias devem estar juntas.

Um livro para ler onde? Em praça pública? No museu? Em silêncio ou em gritada euforia? Para já estão no recato de um livro de capa rasgada e amarela, como de amarelo estão pintadas todas as faces do miolo."


23 de outubro de 2016

O escaravelho e a via láctea

Às vezes não consigo escrever: a folha põe-se a olhar para mim com uma brancura acusadora e eu, de consciência pesada e sem vontade de acusações e inquirições, fecho-a. E ai dela se protestar, desligo-a. Belos tempos, estes em que escrevemos em folhas ligadas à electricidade. Entre isto e a Siri, já me sinto menos na proto-história da psico-história, meu rico Hari Seldon - a adolescência não há meio de me passar...
De tanto não conseguir escrever, peguei no meu Pamuk, O Museu da Inocência, e sentei-me a ler. Às vezes não consigo ler. Felizmente, o peso dos livros é o de uma pluma quando são fechados.
Às vezes não consigo sequer ligar a televisão para não ver um filme. Preta e muda, nem um ai, nada, calada. Música? Não, nem no meu coração de von Trapp em plenos pulmões de Maria. Para quê pô-la se não a ouviria?
É quando estou cheia de pensamentos vagos, ainda longe da razão, aqueles que, não sendo já da matéria dos sonhos de enquanto durmo no lado mais fundo do sono, aqueles de que nem me lembro, também ainda não são da matéria da razão. Há um trânsito de pensamentos. E quando há muito tráfego, não há espaço para mais nada a não ser para aquela coisa nenhuma.
Não faz mal. Depois, direi que tive uma ideia não sei como. Ou que um verso me apareceu feito, ou três páginas sem uma rasura, e tudo isso sendo verdade, é mentira: houve antes o tempo vago, o dia peripatético pela casa, estes nadas, mais finos do que teias de aranha, depositados um sobre o outro numa trama de dessentido a tomar conta das horas todas.
E conforme começa, acaba. Sem saber porquê, lembrei-me de um artigo que li há dois ou três anos: o escaravelho, sim, esse bicharoco mínimo de vinte ou trinta milímetros, anda em linha recta guiado pelo sol, pela lua, e pasme-se, se sol e lua faltam, pela via láctea. É isto: levanta o olhar para o céu e faz o caminho mais curto de volta a casa. De que mais preciso eu para escrever?

21 de outubro de 2016

Perfume

PERFUME

O céu, cinzento desta maneira,
tampa de tacho,
cai sobre nós e um dia…
Hoje não. Hoje armou-se-me
o Amor em Primavera e fui
cheirar-te. Não a ti, propriamente dito.
Ao teu perfume. Avancei clara
mais que o sol perfumaria adentro,
a direito, um raio de luz igual ao fundo,
o teu perfume – ah cacete, isto de ser mulher
é encontrar o Graal num tester!
Na verdade, odeio-te. Mas sou
como Pessoa me escreveu,
a maior indisciplina interior
junta à máxima disciplina exterior,

e por isso nunca os meus lábios abririam
no seu botão de rosa, calão,
toda a liberdade é do intelecto,
é do verso, o poema é a inclusão
da vida, de todas as formas de vida,
e das palavras que a vida pariu, umas e outras,
e as que ficam a meia geografia.
Selecta, o nome adulto para bem comportada,
porte-se bem, ouviu, seja sempre uma senhora,
borrifo o cartão, as gotas de perfume no ar…
Não estás no perfume, essa volatilização sublimada
do corpo.
E não estás nas tuas palavras, esse espelho do pensamento
processado.
Não estás e eu odeio-te no verbo não.
Respirei bem aquele pedaço de papel. E joguei-o fora.
Não gostou? Quer testar outro?
Como se isso fosse possível,
testar outro… pois sim. Como?
Não é o coração um cabrão de um animal
doméstico, fiel, um cão?

11 de outubro de 2016

Impedido

IMPEDIDO

- Não me sinto lá muito bem... Sabes, quando não é nada de concreto, mas percebes que alguma coisa está mal? Sinto, pronto, é mesmo aqui, no peito.
- Marca uma consulta no cardiologista - o que é que custa? E explicas-lhe, dentro do possível...
- Queres que lhe explique que tenho um problema de coração? Digo-lhe o quê? Que está impedido? Que por mais liguem, o diabo não atende?!

7 de outubro de 2016

É uma inocência poética, perdão, uma verdade poética, Mrs. Stedman...

Sempre acho a engenharia aeronáutica uma forma melhor de viver nas nuvens...

O meu sobrinho trouxe hoje para casa um trabalho que fez na sala de aula o ano passado, quando estava no terceiro ano. Foi pedido um texto, tema livre. O meu sobrinho perguntou se podia fazer um poema. A professora do meu sobrinho, Mrs. Stedman, disse sim. 
A minha irmã, mãe do meu sobrinho, contou-me isto ainda há pouco. A seguir leu. Disse-lhe logo: 
- Não quero cá mais poetas na família, só escrevedores de best-sellers, page-turners, chamem-lhe o que quiserem! 
E ela, zás, armada em liberal: 
- Ora essa, porquê? Se for poeta, é poeta.
E a minha indignação:
- Isso diz-se? É que já não há pais à antiga portuguesa...
Depois, mandou-me a photo do trabalho por email. Retiro o que que disse, pronto, pode ser poeta à vontade - até porque ele quer ser engenheiro aeronáutico. Posto isto, transcrevo.
Mrs. Stedman thinks I'm listening,
but I'm thinking about planes,
in the sky.
She thinks I'm listening,
but I'm thinking about dolphins,
in the sea.
Mrs. Stedman thinks I'm listening,
but I'm thinking about ships,
in the ocean.
(É preciso não esquecer: quando o meu sobrinho escreveu isto, só tinha sete anos, agora, agora é muito mais crescido, uma loucura, já diz quando eu era pequeno, uff... oito anos, senhores, oito anos é muita fruta!)

3 de outubro de 2016

Lembra

LEMBRA

Digo-te isto para que saibas quem és,
às vezes,
esquecemos, confundimos,
desconseguimos e ao fim, desacreditamos,
colam-se-nos os fantasmas
dos vivos e as memórias dos mortos
e da voz faz-se um fio à míngua de palavras -
e onde a palavra não chega, o pensamento
não cria o acto e morre-se, morre-se, morre-se
um dia de cada vez de tanto não ser. Então
digo-te isto para que saibas quem és:
és um ponto suspenso no infinito, e
lembra: o infinito cabe num ponto.