SETÚBAL, COIMBRA E FREIXO DE ESPADA À CINTA
Há dias maus,
tão maus, mas tão maus que,
se não amasse a vida com gana,
odiava-a.
Quem me dera chicotear aquele
grande cabrão que passa a tarde
a quitar o carro preto mate:
vidros pretos, jantes pretas,
um tubo de escape arrancado
a algum foguete de Cabo Canaveral,
e o paizinho reformado a assistir,
a assentir a bestialidade no passeio,
os dois de tronco nu, um cheio de esteróides,
o outro cheio do filho. Depois vão para casa os dois.
Vejo cá de cima, o cabrão a urrar e a encher de porrada
o saco de boxe pendurado no limoeiro do quintal
e a encher de porrada e patada a cadela -
não sei como ainda não a matou. E puta da namorada,
cadela de outra espécie, faz o mesmo. Ó irmandade
dos afectos… porra que só se consegue amar ao espelho!
Não sei o que é pior, se ser a cadela
das bestas de carro preto quitado para o apocalipse futuro,
ou ser o cavalo dum cigano que por aqui passa - qual cavalo?
pele a reboque de uns ossos, e vá de chicotada.
E era mesmo com esse chicote que eu os chicoteava de gosto,
ao filho, ao cigano e à cadela de duas patas.
Odeio não o fazer. Ou não fazer que não façam.
E não o faço por falta de amor.
Não amo aquela trindade de filhos da puta.
Muito menos para os ensinar através do perdão – não há perdão.
Nem amo a cadela nem o cavalo o suficiente
para chicotear a trindade de filhos da puta.
O amor vê-se. Eu podia roubar a cadela e o cavalo e fugir
com eles para Setúbal, Coimbra, e depois Freixo de Espada à Cinta.
Mas não os amo, por muito que goste de pensar que sim.
O amor vê-se:
meu amor, minha querida, disseram-me os meus amores,
e puseram-me um par de cornos - é cá uma patada…
ou pior, uma chicotada de cigano, meu amor, minha querida,
adoro-te, só gosto mais de mim e de um monte de gente antes de ti.
Ninguém me amou mais do que eu amo aquela cadela
ou aquele cavalo. Ninguém me amou e ponto final.
Talvez seja por isso que nunca fui a Setúbal nem a Coimbra.
Nem a lugar nenhum nem a Freixo de Espada à Cinta.
tão maus, mas tão maus que,
se não amasse a vida com gana,
odiava-a.
Quem me dera chicotear aquele
grande cabrão que passa a tarde
a quitar o carro preto mate:
vidros pretos, jantes pretas,
um tubo de escape arrancado
a algum foguete de Cabo Canaveral,
e o paizinho reformado a assistir,
a assentir a bestialidade no passeio,
os dois de tronco nu, um cheio de esteróides,
o outro cheio do filho. Depois vão para casa os dois.
Vejo cá de cima, o cabrão a urrar e a encher de porrada
o saco de boxe pendurado no limoeiro do quintal
e a encher de porrada e patada a cadela -
não sei como ainda não a matou. E puta da namorada,
cadela de outra espécie, faz o mesmo. Ó irmandade
dos afectos… porra que só se consegue amar ao espelho!
Não sei o que é pior, se ser a cadela
das bestas de carro preto quitado para o apocalipse futuro,
ou ser o cavalo dum cigano que por aqui passa - qual cavalo?
pele a reboque de uns ossos, e vá de chicotada.
E era mesmo com esse chicote que eu os chicoteava de gosto,
ao filho, ao cigano e à cadela de duas patas.
Odeio não o fazer. Ou não fazer que não façam.
E não o faço por falta de amor.
Não amo aquela trindade de filhos da puta.
Muito menos para os ensinar através do perdão – não há perdão.
Nem amo a cadela nem o cavalo o suficiente
para chicotear a trindade de filhos da puta.
O amor vê-se. Eu podia roubar a cadela e o cavalo e fugir
com eles para Setúbal, Coimbra, e depois Freixo de Espada à Cinta.
Mas não os amo, por muito que goste de pensar que sim.
O amor vê-se:
meu amor, minha querida, disseram-me os meus amores,
e puseram-me um par de cornos - é cá uma patada…
ou pior, uma chicotada de cigano, meu amor, minha querida,
adoro-te, só gosto mais de mim e de um monte de gente antes de ti.
Ninguém me amou mais do que eu amo aquela cadela
ou aquele cavalo. Ninguém me amou e ponto final.
Talvez seja por isso que nunca fui a Setúbal nem a Coimbra.
Nem a lugar nenhum nem a Freixo de Espada à Cinta.