1 de setembro de 2016

Sagrado Coração, a vida é uma coisa, o amor é outra

E de ouro e prata cobrirei o seu manto...

SAGRADO CORAÇÃO, A VIDA É UMA COISA, O AMOR É OUTRA
O filho era alto, o filho era forte, o filho era seu. Desde o primeiro instante soubera que estava de esperanças e daria à luz aquele filho - no Alentejo de então, uma senhora não engravidava nem paria. E soubera de imediato que era um menino, e seria um rapaz, um belo homem, o seu contentamento.
Já tinha uma filha. Esguia e esperta. Porém com uma fraqueza que decerto fora buscar ao pai. Via-se à légua que um homem havia de fazer dela gato e sapato e por isso era preciso ataviar-lhe bem o pensamento, enchê-lo de tudo quanto a fortalecesse, a armasse para que nesse dia por vir, e viria, não se partisse como a vida – não se partiu.
Custou-lhe horrores separar-se daquela filha e enviá-la para fora, para um colégio em condições, mas tinha de ser e só Deus sabia o quanto lhe custava. Se uma mãe vê a fraqueza de um filho e nada faz, merece o filho que tem?
Para o pai a filha não tinha defeito. Podia ficar ali, ir com ele espreitar a madrugada nos campos.... Que orgulho tinha nela quando fazia dançar os cavalos, quando espreitava os curros e dizia, este é uma besta linda de força, ó touro preto. Podia ficar ali, dedicar-se à dressage, ou fazer-se veterinária, gestora, economista, enóloga, não casar nunca, ser o seu braço direito e o esquerdo, enfim, o que quisesse. Mas a mãe que não, não que ela era fraca, tinha uma moleza de coração que era preciso fechar ou havia de dar cabo dela.
O que é isto que as mães sabem? Que além conseguem ver?
E ele, está bem Maria Antónia. Nunca em tempo algum conseguira dizer não à mulher. Baixa, magra, elegante. Desprendia-se dela uma força que punha as criadas a chiar sem dizer um ai. Dava conta de tudo. Metia-se em tudo. Naquela altura ganhava-se uma miséria na apanha da azeitona, na cortiça... O campo ou era patrão ou era miséria. Homens e mulheres chegavam a pé, um quase nada no farnel, subiam para a camioneta, os capatazes de marmita e más palavras e aquilo revirava-lhe o juízo.
Pôs tudo a mexer. O padre, devota como era, com livro de cheques aberto, que sim, que sim, pois com certeza, a caridade era a obra do cristão. Qual caridade? É um dever! Que sim, precisamente, um dever e uma virtude. Qual virtude? O privilégio vem com a responsabilidade. Se não a conhecesse havia de julgar que o comunismo lhe andava no sangue. Qual comunismo? Benza-o Deus que só diz disparates. Era assim, atrevia-se a abençoar o padre. Fosse como fosse, um camião de caixa aberta passou a ir deixar os meninos à escola de lancheira cheia que ela não admitia que os filhos dos seus trabalhadores comessem a fome e a reguada destinada aos pobres. Nem que as meninas em vez de irem para a escola fossem para a costura. Isso é que era bom. Com os seus trabalhadores, não, que ela era mulher e sabia muito bem o que era ter por pai, um homem que não distingue uma mulher duma égua.
O marido bem lhe apontava este excesso de possessivos: os meus trabalhadores, as minhas crianças, a minha escola, o meu gado, o meu fruto. E ela arrematava, pois se Deus mos deu, quem os há-de cuidar? Não tos deu, emprestou-tos. Que nós morremos, Maria Antónia, e a terra fica.
O certo é que era adorada. Era mãe e era juiz e palavra de lei. Quem entrasse pelos portões da herdade, o que queria era não ter de sair, que pertencer a alguém assim parecia melhor do que ser livre. O que era lá isso de ser livre de barriga vazia e uma fila de filhos de boca aberta?
A ideia de reforma agrária ali não criava raízes. Nem quando apareceu por lá, ao calor de Agosto, José Augusto, ex-estudante de engenharia com passagem secreta por Moscovo, agora a caminho da clandestinidade pela via iniciática do Alto Alentejo.
Nessa altura, Ana, a filha mais velha, depois de anos de internamento na Suiça e do surpreendente curso de medicina, de onde lhe viera a veia? anunciara que pretendia especializar-se em psiquiatria. Aquela medicina sem Deus, sem vísceras, sem sangue, sem cabeceira de doente arrancado à morte à força de tubos e bisturis, parecia à mãe menos medicina. Para mais era uma medicina sem Deus: se a cruz de Cristo era nítida e limpa nas paredes das enfermarias, nos gabinetes dos psiquiatras não estava a imaginar que lá houvesse alguma. Ó mãe, mas onde é que vai buscar essas ideias? Então essa gente não é tudo judeus? Pensarás que não leio essas porcarias? Leio tudo. Tudo que o mundo não me passa ao lado. Isso é lodo, se aí entras não sais que não está feito para se sair, está feito para afundar.
A vastidão das planícies e o céu aberto sufocavam Ana. A mãe, aquela mulher pequenina, sufocava-a mais do que as planícies, estendia-se mais do que o céu sem fim. Era isso. A mãe era aquele céu sem fim e até ao chão. Nunca, nunca havia de voltar para Portugal. Se não fosse o pai nem nas férias viria. E o irmão. Adorava o irmão.
O irmão era piloto aviador. Na Força Aérea, pois claro. Tenente. O menino dos olhos da mãe. Fazia razias por cima da casa grande, de cabeça para baixo, um pássaro brincalhão, para dizer olá à mãe que sufocava de orgulho daquele filho todo igual a si, mas melhor, e dizia ao marido, João, diz ao teu filho que não quero loucuras, onde já se viu, arranca-me as telhas. Adorava. Tinha o grande oratório de casa todo em luz, velas, lamparinas noite e dia, um jardim aos pés dos anjos e Santos, Santos Apóstolos, e à cabeça, Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Era um móvel imenso, aquela cómoda-oratório oitocentista, uma coisa feia do tempo de Dom João V, ostensiva no seu rococó flamejante, entalhado, ricamente dourado nas quatro gavetas, na grade por cima, lacado e pintado nas portas, e outra vez dourado por dentro. Um monstro refulgente que cuspia luz e fogo nos olhos de quem entrasse na sala.
Na igreja da sua devoção Maria Antónia era igual. Nada faltava jamais no altar de Nossa Senhora da Conceição. E, para atestar a sua humildade, ela própria limpava com as suas mãos cada voluta entalhada de barroco dourado, e ai se do manto bordado a ouro e prata se desprendesse um fio, ela, era ela que o bordava. Para alguma coisa tinha servido a educação de égua a que o pai a obrigara: se quisesse desenharia, se quisesse bordaria, se quisesse tocaria piano e cantaria, comporia arranjos de flores de pasmar. Não queria nada disso, nada disso fazia. Só bordara a primeira roupa dos filhos para o primeiro dia sobre esta Terra, o primeiro lençol. O resto, só pelos anjos e Santos e Nossa Senhora da Conceição.
Nesse Verão tórrido, Ana conheceu José Augusto que andava numa acção de consciencialização mal sucedida na quinta. O povo resistia-lhe, não se sentia oprimido nem explorado pelo patronato por mais que ele lhes demonstrasse por a mais b que sim, e da pior maneira, eram escravos de boa-vontade.
Não inflamou os trabalhadores mas incendiou a filha dos opressores de tal maneira que lhe fez um filho que ela, moderna e socialista, havia de parir. Adeus psico-França, olá Portugal. Como eram ambos independentes e contra a exploração do homem pelo homem, só aceitaram de presente um apartamento amplo, arejado e bem mobilado na Avenida de Roma, seis assoalhadas, duas casas de banho, quarto independente para empregada ao lado da cozinha e uma mesada – o que ela ganhava no hospital ainda sem a especialidade era nada, e ele voltara à engenharia no Técnico por artes mágicas e sem a polícia nos calcanhares e vagamente cuspido pelos camaradas. O comunismo era o estado primitivo do socialismo. E pronto.
Infelizmente, conforme a mãe vira sabe-se lá como na infância da filha, aquele marido com uma mulher atrás de outra, era a sua fraqueza exposta à luz de Freud, Bion e Klein, a sua própria santíssima trindade, sem lamparinas nem velas e pelas estantes em lugar do oratório – cada um organiza o céu e a terra e os dias entre eles como pode e sabe. Mesmo assim, aceitando ela aquilo, porquê? três filhos e inúmeras amantes depois, o marido deixou-a por uma colega. Nem sequer mais nova. Estava farto da filha adolescente que o fizera avô antes de tempo, toxicodependente para além de qualquer psicomerda que a justificasse e os outros dois não precisavam dele, eram orientados. A mulher fizera-se avó porque não aceitara, por respeito à trindade, ser mãe do filho da filha. Se a mulher não se abalava, se a mulher era um pilar resistente a tudo e que tudo explicava, ele estava farto, farto, farto. Quem tinha razão era a velha. Era doida mas não era maluca. Devia ter encarcerado a filha até lhe sair do sangue e do pensamento a vontade da droga. Agora a andar de centro de desintoxicação em centro de desintoxicação, e nada, o pai do seu neto na alheta, outro drogado, não podia mais. Estava farto. Farto da superioridade da  mulher, farto dos filhos, do neto pequeno no berço a berrar a ressaca da mãe.
A velha doida era nem mais nem menos do que Maria Antónia.
Em 69 o filho fora para Angola. Contra a sua vontade de mãe. Dissera ao marido, vamos ficar sem ele. Cala-te. E foi a primeira vez que a mandou calar. Ele vai fazer uma guerra que não quer: não o ouviste dizer que a descolonização tinha de ser feita? Ouviste ou não ouviste? Não percebes que vai contra ele mesmo matar gente que está a lutar pelo que é seu? Não o ouviste dizer do embargo de armas da ONU? Não percebes que por causa disso os aviões que temos são uma merda e os russos não andam a brincar? Maria Antónia, acalma-te! As coisas não são assim tão simples… a mania que tu tens de simplificar tudo até ao osso. São exactamente assim. Faz qualquer coisa, estou-te a dizer para fazeres qualquer coisa.
Ele não fez. O ultramar também era dele. Fez ela. Gastou o genuflexório que tinha diante do oratório. Na igreja, o altar de nossa Senhora da Conceição luzia de ouro, de chamas, de flores.
Quando soube que o filho tinha sido abatido, não chorou uma lágrima. Mas foi um horror para uma assistência muda e imóvel. Tirou da parede os registos, mesmo os que herdara da sua avó, os da sua mãe, atirou-os ao chão, pisou-os. Arrastou ela mesma o oratório até ao alpendre e depois mais para diante. Atirou-o ao chão a gritos e pontapés. Pegou em cada Santo, anjo, Apóstolo, Nossa Senhora amada, e insultou-os de tudo quando sabia e até do que nem sabia conhecer. De traidores, desalmados, merdas, incapazes, filhos da puta amaldiçoados para todo o sempre. Pegou-lhes fogo. Ardam! Vestiu-se de preto e nunca mais dirigiu a palavra ao marido que comeu o desgosto com o silêncio, voltado cada vez mais para a filha e os netos.
Quando a filha lhe foi mostrar o bisneto, veja mãe, o menino, olhou-a nos olhos e disse-lhe: não aprendeste nada com a morte do teu irmão? Devias ter levado a tua filha a fazer um aborto, devias tê-la fechado até que o mal lhe saísse do sangue e da cabeça. Mãe, como é que é capaz de dizer isso? É uma vida. Não aprendeste nada: a vida é uma coisa, o amor é outra.