22 de setembro de 2016

Pró menino e prá menina


PRÓ MENINO E PRÁ MENINA
Teria doze anos quando a voz de Lena d’Água inundou rádio e rua com o refrão olha o robot, é pró menino e prá menina, olha. Nunca imaginei, foi viver no tempo em que poderia ter um robot. E não estou a falar do aspirador que circula pela casa a devorar pó e fios de tapete. Estou a falar de um senhor robot, um homem objecto, perdão, um andróide objecto, um robot sexual.
Lembra-se de Blade Runner? Pois bem, a empresa RealDolls ainda não lhe entregará à porta de casa a modelo básico de prazer que era a Darryl Hannah no filme, mas já despacha para todo mundo bonecas e bonecos de silicone com alto grau de realismo. Conto-lhe um detalhe, ou melhor, trinta. Trinta são as cores possíveis para os mamilos, trinta os tamanhos. Até a manicure é personalizada.
O passo seguinte é dotá-los de inteligência artificial. Como na letra da música: está pronto a ser programado, olha. Volto ao cinema.
Lembra-se do filme Her, em português Uma História de Amor entre um homem e o seu sistema operativo, aquela inteligência viva que falava com a voz de Scarlett Johansson?
Escolher um sexbot de qualquer natureza, à la carte, já não é ficção científica. E dizermos, ah, são bonecos, não são pessoas, em nada reduz a intensidade da relação possível. Basta ver a forma como nos relacionamos com os objectos: representam-nos. São extensões nossas. Olhe, como uma criança e a sua chucha. Nós e os nossos carros, carteiras, smartphones… são nós, não é?
O meu smartphone, pensamos, está ali, ao meu dispor, mas a verdade é que uma sms chega, um e-mail, uma chamada, e quem está ao dispor sou eu, somos nós, numa relação de co-dependência. Boa e má. Como todas as relações. Os nossos objectos inanimados estão vivíssimos. Tenho uma banda de fitness no pulso que me informa acerca de mim, dá-me os parabéns, solta foguetes quando atinjo os objectivos: é a minha cheerleader particular. Quando ela me faz a festa e eu lhe sorrio de volta, para quem estou eu a sorrir?
Agora imagine que conhece alguém dotado das características que mais a atraem: giro, culto, organizado, descontraído. Um pensamento que a desafia. E conversa, ri, alguém que a beija na boca e diz boa-noite, minha querida. Alguém por quem se apaixonasse. Não é assim tão difícil.
Quem é que nunca procurou um colega de escola no Facebook? É a tecnologia a facilitar e mediar o contacto social. No degrau seguinte a tecnologia cria e provê o contacto social. Agora, onde leu contacto social, leia sexual. Ou amoroso. Com alguém por quem se apaixonasse. Vê como está no advento da próxima revolução sexual? É a revolução sexual robótica, pró menino e pra menina, olha.

Publicado na Revista Epicur, Verão, 2016