17 de setembro de 2016

Os gatos querem dizer olá

OS GATOS QUEREM DIZER OLÁ

Saio de casa. Estou a abrir a porta do carro
e o gato no telhado baixo, em frente,
preto, olhos cinzentos, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem um ai de adivinha, 
imóvel, olha-me, aquela íris de fumo, 
e a pupila de fundo falso atrás de fundo falso:
onde acaba o ilusionismo começa a magia -
magia é amanhã da ciência, e ontem.
Chego ao quiosque. Estaciono. Saio do carro
e um gato no telhado baixo, o mesmo gato 
uns quilómetros abaixo? preto, olhos cinzentos
de fumo sem fundo, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem uma ai de adivinha, 
imóvel, olha-me. Ai o cabrão do gato, filho da ponte
Einstein–Rosen, mesmo ou outro, 
clone de si ou anti-matéria ao espelho.
Já não penso no Expresso. Nem na Magazine Littéraire.
Lixe-se a Le Point e o sábado impresso:
os gatos querem dizer olá.
Saio do quiosque, o saco de plástico do Expresso cheio, 
mas qual jornal ou provisões 
para o pensamento semanal decidido em editorial:
penso só no deserto do Arizona
a escorrer território Hopi e nas suas aldeias levantadas
e abandonadas, levantadas e abandonadas:
nómadas de Oríon, os índios, seguem a cintura de estrelas,
mapeiam o céu e no exacto ponto levantam casas de raízes de barro
e seguindo sempre as abandonam depois, fiéis às estrelas,
o céu primeiro, a terra, seu espelho, depois. 
Os índios Hopi esperam o regresso dos seus deuses siderais 
e enquanto isso assinalam com precisão de bordado 
portais nas suas janelas, telhados, quintais, 
wormholes por onde deslize a saudade, o tempo e 
a comunicação privilegiada, na primeira pessoa,
sem mediação de imprensa nem necessidade de carro ou felino.
Volto para casa. Desligo o motor. Mal ponho os pés no chão,
lá está ele, agora frente a frente, sem equívocos,
preto, olhos de fumo infinito. Pergunto-lhe:
que tal é viajar por um túnel de minhoca, 
menino gato mensageiro? Eu sei que estamos todos à espera.
Dos senhores de Oríon, como os Hopi,
ou da vinda de Cristo e da Parusia
em fogo e efeitos especiais de cinema, 
ou de Dom Sebastião, ou do Amor. 


Os gatos são mais espertos, não esperam, vão,
os gatos querem dizer olá.