2 de setembro de 2016

A pequena ordem do meu mundo, amigo Demócrito

A PEQUENA ORDEM DO MEU MUNDO, AMIGO DEMÓCRITO
Eva saí de casa,
rua abaixo pelo Paraíso,
olho para cima, e à minha esquerda,
da varanda, um lobo olha-me atento,
e logo a seguir desvia o olhar
para os dois tigres que atravessam
lentos a estrada quente de tanto Verão.
Os incrédulos dizem, ó parva,
especialista em inutilidades,
na varanda está um cão e ali dois gatos,
tu não és Eva nenhuma e esta merda é o mundo
que temos, a puta da vida num dia
de calor a arder ao sol. E outros mimos.
Podia chorar. Dar-me trinta segundos de pena. Às vezes dou.
Mas contra o relógio para não amolecer a vontade, pois
em verdade vos digo:
cada um sabe onde vive,
não é preciso ser Lyca de Blake
para dormir tranquila entre feras,
nem é Lyca quem se perde ou se encontra,
é o Paraíso que se ganha quando nos ganhamos:
ninguém tira, ninguém pode tirar,
o que é nosso para ganhar.
Cada um é que sabe quem é.
Eu própria conheci um homem,
ele dizia ser Jesus, e quando eu passava no corredor,
ajoelhava-se, segurava-me as mãos, chamava-me mãe,
santa maria, visão do céu vestida de branco.
É certo, tinha diagnosticada uma esquizofrenia
e estava descompensado, mas quem raio era eu
para lhe dizer tu não és Jesus, só pude dizer-lhe,
não sou tua mãe, e segurar-lhe nas mãos também
para que se levantasse, e começar a partir daí uma conversa -
somos a mesma matéria, não é?
Quem diz uma conversa com este homem, diz com o mundo.
Descobrir com ele, o homem, se ele é Jesus, quem é, que nome tem,
as mãos que trouxe para fazer a vida.
Descobrir com o mundo o que é o mundo.
O que são estes quatro e tal por cento de mistério cognoscível
e os noventa e cinco por cento de mistério absoluto.
Um verso de cada vez.
Porque não sou Demócrito. Não me entregaram aos Magi
para aprender, não tive mestre Leucipo, nem calcorreei
pérsias, babilónias, nem egiptos nem índias de sabedoria,
e quais grécias? Mal deixo esta cadeira…
Tenho pouco mais do que a mim - um pouco de ti, talvez.
Mas rio, e se rio como o meu amigo Demócrito riu, sem relógio,
e ainda só fui à rua de baixo aqui do Paraíso.
E Eva saí de manhã,
vi um lobo na varanda,
dois tigres na estrada:
fazemo-nos domésticos por amor,
fazemo-nos pequenos para que seja grande
o que o nosso amor ilumina: um filho, um homem, uma cidade,
uma ideia, uma obra, uma civilização.
Como a dádiva do Lobo ao Homem,
fê-lo dono, fê-lo amo, fez-se cão.