1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.