15 de julho de 2016

A minha gente


A MINHA GENTE
à minha gente
Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.
Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas - nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas - eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.
E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
- Foi ao Mariinski?
E ele:
- Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
- Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
- Fui, fui…
- Quem?
- A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
- Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.
Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.
O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.
Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.