5 de junho de 2016

Para que saibas que o mundo é vasto




Um blog também é um diário sem chave, deixado aberto em cima da secretária, quem passa lê, espreita, folheia sem ver, a pensar em sabe Deus o quê, a lista do supermercado, o fato esquecido na lavandaria, e segue adiante. É só um blog.
E até pode ser o tubo de ensaio dos pensamentos por haver, dos poemas por escrever, dos contos, dos romances. O rascunho na sebenta. Uma palavra esconde-se. Enfia-se na noite. E só nos resta segui-la. Aprendi cedo. Não por inteligência ou mérito, só por ter lido muitas vezes a história de João e Maria. Também eles saíram de casa para entrar na floresta e se viram aprisionados na casa da bruxa de onde é preciso fugir tantas vezes quantas ela nos prenda. E deixa-se o pão a marcar o caminho de volta, e os pássaros levam-no. E deixam-se seixos que lua transforma em olhos de gato, e é então que a noite se vê por dentro, e nenhuma bruxa nos prenderá jamais sem que possamos fugir porque a floresta vai connosco dentro do bolso, e o mundo por baixo das raízes sabe o nosso nome.
Isto para dizer, meu blog, Querido Diário:
A noite desta noite estava cheia noite por todos os lados, e do silêncio das coisas adormecidas em cem anos de sono profundo. E eu acordada pelo meu próprio eco - quando era pequena tive uma boneca avariada dos olhos, mesmo deitada, não os fechava, e aquele azul de longas pestanas pretas, ficava ali a furar o escuro até que eu lhe pegasse e dissesse bom-dia.
Quando não estou a escrever, avario dos olhos, Querido Diário, e começo a ouvir o silêncio a crescer devagar e, a mim que nada me falta, de repente, falta-me tudo quanto um dia pensei que me faltava e hoje são sombras de sombras de nadas sem futuro. Porque quando não estou a escrever, quando nem sequer estou a jogar à apanhada com um verso no corredor sem fim da casa da minha avó, não sei o que hei-de fazer das mãos - ainda por cima nem fumo para as ocupar com um cigarro. Não posso ler, estou à espera. Sou uma boneca avariada. Quando não sei escrever, não sei nada. Fico de olhos abertos a furar o escuro.
Querido Diário, ninguém me pegou e disse boa-noite, então, para escapar da bruxa, enfiei-me no Meo Video Clube Inside Llewyn Davise julguei que sim. Mas os pássaros levaram-no. Fui outra vez ao Meo Video Clube The Grandmaster. Voltei aos meus gatos por dentro dos seixos para atravessar a noite e regressar a casa.
Querido Diário, digo-te isto para que saibas que o mundo é vasto.