17 de junho de 2016

Os anjos sentam-se connosco à mesa nas cadeiras vazias



Já aqui contei que saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Sei lá porquê, talvez pelo bem que fazem à gente quando usam a nossa fraqueza ao peito.
Hoje, esta noite, ainda há pouco, estava contar a mim mesma a história de como a vida me tem sido boa. É isso: além de coleccionar palavras, e frases que as pessoas dizem, música de ouvido para quem escreve, colecciono felicidades, bondades, sonhos que sonho à noite enquanto durmo, e outras mínimas criaturas, coisas pequeninas, um verso, que nascem no escuro e crescem, crescem sempre em direcção à luz.
A vida tem-me sido boa. Até quando não foi. Nunca me fez tropeçar no que não se revelasse depois um degrau, nem tive sofrimento que não fosse necessário - vá-se lá perceber isto, a gente a deitar contas, a procurar entendimentos, e a água a correr sozinha, sem ninguém lhe ensinar o caminho, em direcção à sede. É assim, são as perfeições que não se deixam explicar, chegam vestidas com outra roupa, até rasgada, mas o coração vê, e quando mais vê, mais vê.

14 de junho de 2016

Ela voltou, a minha andorinha

ELA VOLTOU, A MINHA ANDORINHA
Tenho uma andorinha. Não que ela seja minha. Ela, a ser de alguém, é dela. Mas nem por isso deixa de me visitar: é o terceiro ano em visita, e desta vez, fez como da segunda vez - contei tudo aqui, até a terrível primeira vez, e o mais que possa dizer é repetição, tirando a grandíssima interrogação que esta visita me faz por dentro, pois onde mais seria o avesso do pensamento, se não fosse no raio do sentimento?
Ó andorinha, és minha? Vens-me ver? Ou vens para que te veja?

E eu toda aflita de não ter aprendido ainda como receber esta linda visita alada, vá de ir escancarar janelas à madrugada - não porque queira pôr na rua uma pequenina menina andorinha, porém, e se se enganou, se se assustou, se sabe Deus o quê, a cabeça não me pára de pasmar de ter uma consecutiva andorinha a voar-me casa a dentro Primavera e Outono, às duas e pouco não é tempo de mais nada, se não da minha andorinha, à hora certa, certíssima, um ano após outro, ó mistério, ó ignorância ornitológica...
Depois fico muito quieta. Não quero que tenha medo. Nem que se arrependa da sua valentia. E a minha andorinha a voar cada vez mais perto, cada vez mais baixo. Olá, sussurro-lhe sem uma única palavra, e já ela voltou a fazer razias ao tecto da sala em velocidades alucinantes.
Ninguém acredita em ti andorinha. Só eu. Vou-te filmar como se fosse um turista chinês: faz pose, voo picado, um dois três!
E se é outra andorinha? Deu-lha a primeira o endereço ou uma razão? Quanto tempo vive uma andorinha? Oito anos, diz a pesquisa noctívaga, verdadeira ou falsa, bendita internet.
Sinto que é a mesma andorinha. Não sei porquê. Nem porque vem. Obrigada, andorinha.

5 de junho de 2016

É o que é

À medida que me vou apercebendo da dimensão das minhas fraquezas, também me apercebo que não tenho outro remédio senão integrá-las na minha força. Não sou, não somos, do tamanho dos nossos desejos. Nem das nossas vontades. A nossa medida exacta é a das nossas decisões.

Para que saibas que o mundo é vasto




Um blog também é um diário sem chave, deixado aberto em cima da secretária, quem passa lê, espreita, folheia sem ver, a pensar em sabe Deus o quê, a lista do supermercado, o fato esquecido na lavandaria, e segue adiante. É só um blog.
E até pode ser o tubo de ensaio dos pensamentos por haver, dos poemas por escrever, dos contos, dos romances. O rascunho na sebenta. Uma palavra esconde-se. Enfia-se na noite. E só nos resta segui-la. Aprendi cedo. Não por inteligência ou mérito, só por ter lido muitas vezes a história de João e Maria. Também eles saíram de casa para entrar na floresta e se viram aprisionados na casa da bruxa de onde é preciso fugir tantas vezes quantas ela nos prenda. E deixa-se o pão a marcar o caminho de volta, e os pássaros levam-no. E deixam-se seixos que lua transforma em olhos de gato, e é então que a noite se vê por dentro, e nenhuma bruxa nos prenderá jamais sem que possamos fugir porque a floresta vai connosco dentro do bolso, e o mundo por baixo das raízes sabe o nosso nome.
Isto para dizer, meu blog, Querido Diário:
A noite desta noite estava cheia noite por todos os lados, e do silêncio das coisas adormecidas em cem anos de sono profundo. E eu acordada pelo meu próprio eco - quando era pequena tive uma boneca avariada dos olhos, mesmo deitada, não os fechava, e aquele azul de longas pestanas pretas, ficava ali a furar o escuro até que eu lhe pegasse e dissesse bom-dia.
Quando não estou a escrever, avario dos olhos, Querido Diário, e começo a ouvir o silêncio a crescer devagar e, a mim que nada me falta, de repente, falta-me tudo quanto um dia pensei que me faltava e hoje são sombras de sombras de nadas sem futuro. Porque quando não estou a escrever, quando nem sequer estou a jogar à apanhada com um verso no corredor sem fim da casa da minha avó, não sei o que hei-de fazer das mãos - ainda por cima nem fumo para as ocupar com um cigarro. Não posso ler, estou à espera. Sou uma boneca avariada. Quando não sei escrever, não sei nada. Fico de olhos abertos a furar o escuro.
Querido Diário, ninguém me pegou e disse boa-noite, então, para escapar da bruxa, enfiei-me no Meo Video Clube Inside Llewyn Davise julguei que sim. Mas os pássaros levaram-no. Fui outra vez ao Meo Video Clube The Grandmaster. Voltei aos meus gatos por dentro dos seixos para atravessar a noite e regressar a casa.
Querido Diário, digo-te isto para que saibas que o mundo é vasto.