19 de maio de 2016

Uma idéia chega

Não fumo, raramente bebo, não jogo. Não sou dada a lágrimas que a tristeza é um vício em que gente se põe. E fazer ninhos para lágrimas, acarinhar a tristeza, é fumar, beber, jogar, é a maternagem dos monstros que nos hão-de devorar como a fome que os devora, os cria.
Tive um tio-avô que jogou uma fortuna pelos buracos dos bolsos e bebeu o que apanhou enquanto jogou e perdeu, e jogou para perder três quartos duma vida, casas, mulher, filhos, fígado. Foi bem sucedido em perder. Era muito alto, magro, as maçãs do rosto encardido de tanto whisky altas também, marcadas. Um fantasma na sua própria existência, a sombra da sua sombra enquanto o sol ia lá fora. Velho, deixou de beber e de jogar, mas já foi tarde, a alma tinha-lhe fugido do corpo e sobrado aquilo, um moralista insuportável como todos os bêbados, como todas as putas, dão lições de virtude e pureza, condenam meio mundo enquanto a outra metade não chega.
Lembro-me de ser pequena, e ninguém o recebia, excepto a minha avó quando ele lhe aparecia depenado de tudo, enfiado pelo silêncio adentro, e aqueles olhos de buraco negro. Tinha tanta pena. Quase dois metros de homem e um sopro o levava pelo céu fora. E medo também tinha. Ainda tenho. Pena e medo. O desejo de perfeição corta a compaixão e cega a harmonia da vida. No melhor dos casos é uma fábrica de bêbados e jogadores, no pior, de donos da verdade, tiranetes, demagogos, que isto de não aceitar a fraqueza, a violência, a vileza, é viver de olhos fechados aos répteis que também nos habitam, e aos que nos espreitam e que é preciso afastar com o fogo - e nem assim vi um dia que não fosse de Glória.
Não tenho ilusões, posso não ser jogadora mas sei que pouco comando. Porém o carro dos meus pensamentos quem o conduz sou eu, e vigio - perder as rédeas é fácil, ganhá-las não, e eu não sou de entregar o que tanto trabalho me deu a conseguir.
Isto para dizer que não sei ser infeliz ainda que não seja estranha à dor. Mesmo aquela dor que nos leva céu fora, bonecos de papel, contra nossa vontade. Somos desejantes, não é? Ou pelo menos fomos, um dia. Os meus desejos sempre se riram de mim. Boneca de papel pelo ar. Os meus esforços também. O que vale é que lhes posso chamar sonhos e fazer a paz com a sua irrealidade, aceitar que falhei e pronto, uma pessoa abraça-se a essa realidade como a outra qualquer - nem é a pior delas, perde-se o mundo, ganha-se a vida, é assim. Por isso ponho-me na infelicidade como num campo de batalha, matas ou morres, e sem dó nem piedade, mato sempre, não posso morrer, tenho livros para escrever, e uma idéia que me leva adiante, leva tudo adiante, mata o que for preciso, nem eu sei como. Não é nada especial. É uma coisa aqui, no peito, uma coisa de carne e sentimento e instinto. Quem tem filhos, casamentos, carreiras sabe do que falo. É a mesma coisa, mas sem filhos, casamentos, carreiras e só uma idéia. Uma idéia chega.