28 de maio de 2016

Formas improváveis




E então ela diz-me, decerto volta a casar. É só querer. E eu a pensar, querer? A pensar sem futurismos. Hoje. Nem considerei os mecanismos misteriosos da paixão nem a relojoaria amorosa. É só querer?
Eu quis. Quando era pequena era um míssil teleguiado. Não tinha vontade alguma de puzzles, Lego, carros. Nada. Só serviços de chá e bonecas, casas de bonecas, roupas de bonecas, baptizados de bonecas, o chorão, o carro do chorão, lindo, em tamanho real e lençóis bordados. E sapatos, carteiras, ganchos de cabelo, vestidos. E as bicicletas, as correrias, subir às árvores, as aulas de ballet, a música e os livros. Melhor do que isto só se já fosse crescida e casada, tivesse a minha própria casa e os meus próprios livros. Muitos livros. Estes eram os meus planos: ser escritora, casada, passear de bicicleta, ter uma casa-biblioteca, e viajar a reboque do meu marido, de máquina de escrever a tiracolo - não havia computadores quando eu era pequena, só a minha Hermes Baby.
É preciso entender que um casamento são pelo menos dois, em regra muitos mais, há família de um lado e família do outro, anos e anos de hábitos, de faz-se assim e assado e, de repente, há quem faça cozido e frito e nós não, não, não! Há quase sempre filhos de primeiros casamentos, e cães, gatos, manias.
Depois dos quarenta é tudo sinal verde, go, go, go, a morte já existe em todos os dias da vida, se não for agora é quando? Não se pode perder tempo com merdas e o que eu quero é escrever, e tenho vinte anos de atraso. Vinte.
Para quê iludir? O amor é uma presença. A companhia desejada. Para comer um gelado, ir ao cinema, passear de mãos dadas, treinar. Beijar na boca e ler junto. O amor é o melhor que há. Portanto, casar, casava, se fosse com a concretização da minha ideia de amor e casamento. E que homem terá a minha ideia, não a dele, de amor e casamento?
Então, não é querer. A ser alguma coisa é um milagre do santo Drummond: onde não há jardim, as flores nascem de um/secreto investimento em formas improváveis.
Ainda assim, sem milagres que amanheçam de novo as antigas manhãs, não é mau apesar de ser egoísta: posso andar de calças de yoga o dia todo, passar meia hora a fazer uma máscara ao cabelo. E levar uma semana a encontrar um verso.

19 de maio de 2016

Uma idéia chega

Não fumo, raramente bebo, não jogo. Não sou dada a lágrimas que a tristeza é um vício em que gente se põe. E fazer ninhos para lágrimas, acarinhar a tristeza, é fumar, beber, jogar, é a maternagem dos monstros que nos hão-de devorar como a fome que os devora, os cria.
Tive um tio-avô que jogou uma fortuna pelos buracos dos bolsos e bebeu o que apanhou enquanto jogou e perdeu, e jogou para perder três quartos duma vida, casas, mulher, filhos, fígado. Foi bem sucedido em perder. Era muito alto, magro, as maçãs do rosto encardido de tanto whisky altas também, marcadas. Um fantasma na sua própria existência, a sombra da sua sombra enquanto o sol ia lá fora. Velho, deixou de beber e de jogar, mas já foi tarde, a alma tinha-lhe fugido do corpo e sobrado aquilo, um moralista insuportável como todos os bêbados, como todas as putas, dão lições de virtude e pureza, condenam meio mundo enquanto a outra metade não chega.
Lembro-me de ser pequena, e ninguém o recebia, excepto a minha avó quando ele lhe aparecia depenado de tudo, enfiado pelo silêncio adentro, e aqueles olhos de buraco negro. Tinha tanta pena. Quase dois metros de homem e um sopro o levava pelo céu fora. E medo também tinha. Ainda tenho. Pena e medo. O desejo de perfeição corta a compaixão e cega a harmonia da vida. No melhor dos casos é uma fábrica de bêbados e jogadores, no pior, de donos da verdade, tiranetes, demagogos, que isto de não aceitar a fraqueza, a violência, a vileza, é viver de olhos fechados aos répteis que também nos habitam, e aos que nos espreitam e que é preciso afastar com o fogo - e nem assim vi um dia que não fosse de Glória.
Não tenho ilusões, posso não ser jogadora mas sei que pouco comando. Porém o carro dos meus pensamentos quem o conduz sou eu, e vigio - perder as rédeas é fácil, ganhá-las não, e eu não sou de entregar o que tanto trabalho me deu a conseguir.
Isto para dizer que não sei ser infeliz ainda que não seja estranha à dor. Mesmo aquela dor que nos leva céu fora, bonecos de papel, contra nossa vontade. Somos desejantes, não é? Ou pelo menos fomos, um dia. Os meus desejos sempre se riram de mim. Boneca de papel pelo ar. Os meus esforços também. O que vale é que lhes posso chamar sonhos e fazer a paz com a sua irrealidade, aceitar que falhei e pronto, uma pessoa abraça-se a essa realidade como a outra qualquer - nem é a pior delas, perde-se o mundo, ganha-se a vida, é assim. Por isso ponho-me na infelicidade como num campo de batalha, matas ou morres, e sem dó nem piedade, mato sempre, não posso morrer, tenho livros para escrever, e uma idéia que me leva adiante, leva tudo adiante, mata o que for preciso, nem eu sei como. Não é nada especial. É uma coisa aqui, no peito, uma coisa de carne e sentimento e instinto. Quem tem filhos, casamentos, carreiras sabe do que falo. É a mesma coisa, mas sem filhos, casamentos, carreiras e só uma idéia. Uma idéia chega.

5 de maio de 2016

Amor Cão

O melhor Cão do mundo. O meu Lindo Cão.

O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Lá fora a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.
Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube... Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão...
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!