25 de abril de 2016

O meu 25 de Abril


A seguir ao 25 de Abril a minha rua mudou. Num passe de mágica, proletária talvez, ao lado de uma mercearia que hoje faria surgir abaixo-assinados para a sua preservação, abriu uma livraria que, segundo a minha avó, era de umas miúdas comunistas giríssimas. 
Nem era bem uma livraria… era um corredor com a parede esquerda, conveniente não é?,  totalmente coberta de estantes cheias de livros. Ao fundo, havia uma mesa com gira-discos e, a meu ver, não duas raparigas, mas duas senhoras simpáticas e conversadoras. Gostava muito de falar com elas, achava-as indefinidamente diferentes: tratavam-me de igual para igual, tu cá-tu lá e muito pá. Tinham imensos livros, pouquíssimos clientes, muita música portuguesa que desconhecia, e não se importavam nada de responder a intermináveis perguntas. 
- E este? 
Perguntava com o dedo na lombada. Só em caso de interesse e grande valor o retirava da prateleira.
- São poemas. 
- Como os de Fernando Pessoa? 
- Não, estes são de um camarada, o José Saramago. 
- O Fernando Pessoa não é um camarada? E esta quem é? 
- É a Ermelinda Duarte. 
Ermelinda no gira-discos. 
- Gostas? 
Se gostava!... Ninguém me calou um Verão inteiro, já não se podiam ver mais gaivotas de asas vento e coração de mar e toda a gente, de uma ponta à outra da rua, sabia que era livre de dizer, e em voz bem alta, cantada à janela para desespero da minha avó e dos passantes.
A bem da verdade, o meu coração andava dividido: em portas contíguas, o passado e o presente em versão mercearia-livraria.
A minha credibilidade, do lado do passado, na mercearia, estava em baixa: anos de actos continuados de rebeldia frustrados pela entidade no poder, tinham levado a observações como: a menina tem a certeza que a avozinha sabe que está aqui e a mandou comprar dois quilos de grão, três bacalhaus, uma barra de sabão de Marselha? Esta gente não sabia o que dizia. Avozinha era a velhinha indefesa que o Lobo do Capuchinho Vermelho comia. A minha avó era toda poderosa, nem o Lobo se atreveria a mostrar-lhe os dentes. Enfim. A pergunta crucificava-me. Adorava aquelas maravilhas de gruta de Ali-Babá e estar ali entre aqueles tesouros, mesmo sabendo que mais minuto menos minuto seria apanhada. Como é que ninguém via que aquele grão a cantar na medida de metal ou os glutões do detergente eram uma maravilha de arrepiar? Não eram apenas duas ou três coisinhas que me seduziam: desde o armário dos cereais até ao balcão onde os autoritários chocolates Coma com Pão se encostavam à manteiga vendida a peso, o tempo perdia a razão de existir. E as conversas? Como as crianças não ouvem, ouvia tudo. Só prodígios. Incendiavam-me a imaginação: uma mãe tinha posto a filha na rua e não sei quantos tinha feito um desfalque no banco, ora bem, desfalque havia de ser, vá, uma espécie de roubo mas por gente da casa. De vez em quando não me caçavam - haviam de pensar que estava no quarto a ouvir até gastar a agulha do gira-discos as minhas ricas histórias – e chegava, de repente, carregada com estas surpresas, latas de conserva e notícias do mundo para extasiar a força feminina no poder e zás, qual o quê? Castigo.
Ó drama, indignação e desgosto, mas render-me, ser a voz sufocada de um povo, o bobo da rainha, isso nunca. Afinal era livre de voar e de dizer e não voltaria atrás. As conversas e músicas da livraria davam o seu fruto.