13 de março de 2016

Nossa Senhora, Ámen

Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Tenho vivido nos últimos tempos numa casa de empréstimo. Uma casa de empréstimo é como um hotel. Quando chegamos, está feita. Não interessa o que lhe acrescentamos para a fazer um bocadinho nossa, uma pintura, uma cadeira, um computador, três caixotes de livros, uma televisão.
À minha esquerda, à esquerda desta secretária que enfiei na sala onde agora trabalho, tenho uma meia cómoda espanhola que veio da casa da minha avó - lembro-me das gavetas de barriga escaqueiradas, a pele que as forrava comida pelo uso dos anos pelos anos, sem fim, dos pregos gordos em falta, e nunca por nunca pensei que tivesse salvação. E teve.
Em cima daquele escuro de quaresma está um oratório de dar gosto ao qual dei um desgosto que não foi brinquedo: alguém, no correr de tantos dias, há-de ter decidido pintá-lo mal e porcamente antes de ter ido parar à arrecadação. Pois quando voltou a ver a luz pela mão da minha mãe, nem eu sonhava viver de empréstimo, já que andava a dourar umas bases de candeeiro, ofereci-me para o deixar em condições. Zás! não é que o deixo cair estatelado no chão? Vá lá, não o destruí completamente. Dei-lhe um banho de mangueira, esfreguei-o, lavei-o bem, secou, levou decapante, e menos duas camadas de má pintura, ia começar a lixá-lo e a minha mãe, gosto dele assim, nem parece o mesmo - foi uma fase décapé que a minha mãe passou há uns anos, ora, nem de propósito... Por sorte, a minha irmã tinha trazido do México uma Nossa Senhora de papier mâché que veio mesmo a calhar, e lá foi o oratório iluminar o escuro da meia cómoda, até hoje. Agora tem uma fita cor-de-rosa a enfeitá-lo, foi o meu sobrinho quem lho pôs, de presente de Natal. O mais novo. Ensino-lhe muitas coisas inúteis. Por exemplo, ensinei-lhe o sinal da cruz. E disse: em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen.
A minha tia beatorra, cunhada da minha avó ateia como ela só, se alguém bocejasse vinha logo de dedo em riste e por cima de uma pessoa para que o Santo Espírito, que todos sabem, tem asas de pomba, não nos voasse da gaiola do corpo para fora, fazia o sinal da cruz e rezava-nos na sua voz de furar paredes: que Dios te benediga! E aquilo devia causar tremor aos anjos, um arrepio de asas, pois eu que não tinha medo de nada, esta miúda é destemida, sentia um friozinho, uma coisa de sombra inesperada no meio da luz. Mas a palavra medo também acrescenta mundo ao mundo...
Nesta altura do ano, nesta casa de empréstimo, e como nos descobrimos numa casa de empréstimo, numa vida que é outra diferente da que antes se teve, por volta das cinco e meia, o sol bate no oratório, nem mil velas, e até às seis bate em cheio, e eu páro tudo naquela meia hora plena só para ver tanta luz a derramar brancura.
O meu sobrinho não aprendeu a dizer em nome do Pai, nem em nome do Filho. O Espírito Santo também não o convenceu. Como o ensinei diante deste oratório, faz o sinal da cruz e diz, Nossa Senhora, Ámen. Não o corrijo. A mim parece-me bem que um homem, mesmo em criança, saúde a Deus numa mulher.