28 de março de 2016

Idiota útil

O IDIOTA ÚTIL
O idiota útil, institucional,
de uns é corrimão,
upa upa promoção,
nas páginas do seu jornal;  
de outros é negativa, adversativa,
não sabe e isso é lenha criativa,
em cada omissão, em cada não,
não sabe e é o bem que faz,
ou não calava ou não diria,
mas porém contudo todavia.
Pela parte que me toca, ó idiota, obrigada.
O idiota útil, institucional,
tem este poder todo,
nas páginas do seu jornal,
é tapete e é muro,
é o fraco e é um duro,
bem nos lixaria se déssemos crédito
à sua grandíssima falta de mérito.
O idiota útil, institucional,
tem valor papal
nas páginas cativas do seu jornal,
e pela parte que me toca, ó idiota, obrigada,
antes tu que eu: esse exercício papal
a qualquer tenrinho seduziria  
para as páginas do teu jornal.

25 de março de 2016

Entre os mundos

ENTRE OS MUNDOS
Sobre esta terra dei
mil passos de sombra
para dar mil passos de luz.
Coube-me esta vista,
panorâmica,
ao perto, não se a tem,
não se pode ter,
conhecer é perder 
em vida
quanto se ganhe 
em compreensão da mecânica da vida,
porque há mundos que não se tocam,
jamais,
nem todos deixamos pai e mãe
para nos unirmos e sermos
pai e mãe no ciclo perpétuo
da criação, alguns de nós
dão mil passos de sombra
e depois mil passos de luz,
- e se a sombra anda sempre na luz de alguém…-
e habitamos entre os mundos que
não se tocam, jamais. 

13 de março de 2016

Nossa Senhora, Ámen

Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Tenho vivido nos últimos tempos numa casa de empréstimo. Uma casa de empréstimo é como um hotel. Quando chegamos, está feita. Não interessa o que lhe acrescentamos para a fazer um bocadinho nossa, uma pintura, uma cadeira, um computador, três caixotes de livros, uma televisão.
À minha esquerda, à esquerda desta secretária que enfiei na sala onde agora trabalho, tenho uma meia cómoda espanhola que veio da casa da minha avó - lembro-me das gavetas de barriga escaqueiradas, a pele que as forrava comida pelo uso dos anos pelos anos, sem fim, dos pregos gordos em falta, e nunca por nunca pensei que tivesse salvação. E teve.
Em cima daquele escuro de quaresma está um oratório de dar gosto ao qual dei um desgosto que não foi brinquedo: alguém, no correr de tantos dias, há-de ter decidido pintá-lo mal e porcamente antes de ter ido parar à arrecadação. Pois quando voltou a ver a luz pela mão da minha mãe, nem eu sonhava viver de empréstimo, já que andava a dourar umas bases de candeeiro, ofereci-me para o deixar em condições. Zás! não é que o deixo cair estatelado no chão? Vá lá, não o destruí completamente. Dei-lhe um banho de mangueira, esfreguei-o, lavei-o bem, secou, levou decapante, e menos duas camadas de má pintura, ia começar a lixá-lo e a minha mãe, gosto dele assim, nem parece o mesmo - foi uma fase décapé que a minha mãe passou há uns anos, ora, nem de propósito... Por sorte, a minha irmã tinha trazido do México uma Nossa Senhora de papier mâché que veio mesmo a calhar, e lá foi o oratório iluminar o escuro da meia cómoda, até hoje. Agora tem uma fita cor-de-rosa a enfeitá-lo, foi o meu sobrinho quem lho pôs, de presente de Natal. O mais novo. Ensino-lhe muitas coisas inúteis. Por exemplo, ensinei-lhe o sinal da cruz. E disse: em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen.
A minha tia beatorra, cunhada da minha avó ateia como ela só, se alguém bocejasse vinha logo de dedo em riste e por cima de uma pessoa para que o Santo Espírito, que todos sabem, tem asas de pomba, não nos voasse da gaiola do corpo para fora, fazia o sinal da cruz e rezava-nos na sua voz de furar paredes: que Dios te benediga! E aquilo devia causar tremor aos anjos, um arrepio de asas, pois eu que não tinha medo de nada, esta miúda é destemida, sentia um friozinho, uma coisa de sombra inesperada no meio da luz. Mas a palavra medo também acrescenta mundo ao mundo...
Nesta altura do ano, nesta casa de empréstimo, e como nos descobrimos numa casa de empréstimo, numa vida que é outra diferente da que antes se teve, por volta das cinco e meia, o sol bate no oratório, nem mil velas, e até às seis bate em cheio, e eu páro tudo naquela meia hora plena só para ver tanta luz a derramar brancura.
O meu sobrinho não aprendeu a dizer em nome do Pai, nem em nome do Filho. O Espírito Santo também não o convenceu. Como o ensinei diante deste oratório, faz o sinal da cruz e diz, Nossa Senhora, Ámen. Não o corrijo. A mim parece-me bem que um homem, mesmo em criança, saúde a Deus numa mulher.

8 de março de 2016

À Secretária

À SECRETÁRIA
Quando eu era pequena
o mundo era maior
e eu estava à porta do mundo
para entrar e ser maior:
ficava sentada a escrever,
sentada a crescer,
à secretária do meu avô,
na cadeira do meu avô,
o monte de folhas A4 a crescer
cheio de caligrafia bem comportada,
redondinha, fechada
como o pensamento dentro das letras:
maus poemas, maus contos, maus ensaios
e até os maus textos fundamentais - inspirados
nas reuniões das nossas cortes medievais -
do Partido Municipalista Português,
do qual fui fundadora-presidente 
um Verão inteiro, 
e um outro passado a completar
os contos inacabados de Karen Blixen,
uma experiência transcontinental-transtemporal
de aspirações pessoanas mediúnicas sem sorte nenhuma,
tive de os acabar sozinha. Bolas, Karen,
podias ter aparecido para escreveres com tua mão na minha!
Lá em casa não me compravam a Colóquio,
nem a de Artes nem de a Letras,
e parecia-me que perdia uma bula fundamental,
então, lá ia enfiar-me na biblioteca municipal
a tentar apanhar o pensamento em Portugal,
mas com atraso regional.
Na Páscoa dos meus treze anos 
veio o Jornal de Letras, mais em conta,
e eu fazia de conta que era naquelas duas redacções que escrevia
com toda aquela gente, pareciam-me… GRANDES.
Sabiam tudo, liam tudo, escreviam tudo –
admiráveis vidas maravilhosas, alfabéticas, misteriosas, sérias, institucionais,
e eu ali à espera de começar a viver e nunca mais.
Cresci. Nunca pus os pés numa redacção.
Já não compro a Colóquio nem o Jornal de Letras -
com raras excepções, é sempre a mesma história
hoje és a Branca de Neve, amanhã um dos Sete Anões,
e vão rodando e cantando os mesmos oito de sempre.
Logo eu que encontro uma flor para cada pessoa,
não ponho flores a quase ninguém.
Os meus deuses do oeste são Dickinson, Whitman, Borges e McCarthy,
e Coppola e Malick que nunca escreveu um livro.
O oriente continua a dar cabo de mim,
é um sonho onde se cai sem nunca acabar de cair.
Dos europeus amados quem mais me interessa é Caravaggio.
Talvez tenha sido pintor, mas nunca li poesia melhor.
E continuo à secretária.

3 de março de 2016

No Armazém come-se bém! É o restaurante da minha irmã!



O ARMAZÉM DO CARMO
Caminho do monte
Aldeamento Planalto
8125-465 Vilamoura


É o queijinho que houver, perdão, do couvert. Mhmm...
As belas ervilhinhas!

E o entrecôte com lagosta? 

NO ARMAZÉM COME-SE BÉM! 


É quinta-feira. Amanhã, juro,
não é brincadeira,
 pasme-se! é sexta-feira.
 Não sabe onde ir jantar?
Ó meu amigo,
isto é mesmo consigo:
pegue no carro,
desate a acelerar
que nem um desembestado,
não páre em nenhum lado,
e mais rápido do que num salto,
zás! já está no Planalto,
um aldeamente,
pequéne,
é uma macheia de gente.
Peça a carta,
a mesa é farta,
choquinhos, ervilhas,
olhe, o que houver,
e o couvert que também é bom,
É o comer
 à algarvéu
,
é uma alegria para o céu...
da boca.
Agora, satisfeito e de papo para o ar,
isso só depois de jantar
no Armazém...
Ah moces marafades,
come-se tão bém!