7 de janeiro de 2016

O fim do mundo




Honra se deve àqueles que na vida
Termópilas fixaram p'ra guardar,
que do seu dever nunca se desviam
que nunca fogem ao que o dever dita
e justos são na acção e sempre rectos,
mas nunca perdem pena e compaixão;
se ricos, generosos, e se pobres
ainda generosos com seu pouco.
Que acodem sempre a todos quantos podem;
e, que à verdade sempre são fiéis,
mas não guardam rancor aos que são falsos.

 E honra ainda mais lhes é devida,
se já prevêem (são tantos os que o fazem),
que no fim há­‑de vir um Efiálte,
e os Persas no final hão­‑de passar.

Konstandinos Kavafis, Térmópilas

2084, La Fin du Monde, de Boualem Sansal, Gallimard, 2015
2084, La Fin du Monde, de Boualem Sansal, é um livro necessário. Explico.
Quando um jornalista se atira ao romance, é quase certo que escreverá sobre a notícia: a notícia do ano, o caso do ano, a política do ano. Enfim, da inflação de um acontecimento e das suas mil circunstâncias, faz o romance. Quando um escritor se atira a um romance, a notícia, o caso, ou a política, até podem ser o pretexto para o mergulho na natureza do homem ao lado da aventura da sintaxe do pensamento, de uma expressão criadora da língua, e dá-se a literatura. Há jornalistas que são grandes escritores. São raros, mas há. E a notícia não faz a literatura mesmo quando faz o romance - não é Truman Capote quem quer. O tempo e a política não fazem literatura mesmo quando fazem o romance – não é Orwell quem quer. E o ar do tempo muito menos a faz - não é Houellebeq quem quer. Nem Roth. Nem McCarthy.
Boualem Sansal, que nunca foi jornalista, fez um bom romance, circunstancial, necessário, a partir da sua experiência, da vida na primeira pessoa - que é a única maneira honesta de escrever. E a partir da política, do tempo e da notícia. Deu um passo atrás para ver objectivamente aquilo que dessa experiência era só subjectivo, porque um escritor não fala de si nem quando é de si que fala. E ancorou aquelas experiência e visão na literatura, mais concretamente em 1984 de Orwell. Não há em 2084La fin du monde, um bom romance, grande literatura como encontramos em Submission, de Houellebeq, a pretexto da mesma islamização. Há um remake de 1984. Porém é um remake muitíssimo adequado, a cautionary tale com as regras do mundo contemporâneo: se naquelas o perigo é o da transgressão da norma, neste o perigo é a norma. Então.
Em 2084, como em 1984, vive-se a experiência do totalitarismo. Porém um totalitarismo religioso que tem à cabeça Abi, profeta por direito divino e representante, Delegado, de Yolah – esse deus sem qualquer divindade. Percebemos progressivamente que Abistan, ou seja, toda a civilização conhecida, é a substanciação de Yolah. Vive-se de e para Yolah num quotidiano super-normativo e hiper-ritualizado, todavia onde o ritual substituiu o significado e o símbolo vale per si.
Quem, o que é Yolah? O embuste, o simulacro de Deus único, o poder total, absoluto, despótico. Não permite pensamento, só submissão. Nem memória de um tempo anterior pois não existe história. Nem diversidade: não há alteridade porque não há individualidade. Tudo e todos são diligentemente vigiados para a detecção de qualquer desvio – e não é que não haja privacidade, o que não pode haver é sequer a ideia de privacidade. Todos são eus. Não há outros. Não há diferença, se houver, é inimiga. Porém até a palavra inimigo supõe uma fraqueza incomportável do regime, e assim o inimigo, externo, desaparece do vocabulário: a língua, como em 1984 de Orwell, é uma e serve ao pensamento único. Pode ser-se aquilo que não se consegue, não se sabe pensar? O ser ideal não deverá ser consubstancial a Yolah, portanto, totalizante?
Ati, o herói de 2084, procura a fronteira deste estado, império feudal que, desde a raiz do pensamento a quase todos os lugares, se estendeu a tudo. E tudo ocupou, até o lado de dentro do ser. Que estado? O Estado Islâmico, claro.
Este é um livro fundamental: o debate do futuro da nossa civilização está por fazer. A política está por fazer. Não apenas por consequência desta ameaça à democracia, à laicidade do estado, aos direitos do homem, à mulher, à forma como vivemos. Afinal as mesmas democracia, laicidade, direitos, modos de ser mulher e de viver são o inimigo para o fundamentalismo islâmico. Não é uma questão religiosa, é civilizacional. Há um muro na Hungria. E há gente a fugir da guerra e da fome que tem, de certeza, lugar na Europa. Extremam-se as esquerdas e as direitas enquanto escalam o poder às costas do fundamentalismo religioso e do empobrecimento. O estalinismo não precisou de religião, nem Hitler na sua tomada do poder, só precisaram de eleger os inimigos… O silêncio e a omissão são a porta entreaberta do terror. Doméstico ou global.
E que diremos a quem vem depois de nós?