16 de janeiro de 2016

Ay mamá...


O meu avô era diferente. Ninguém tinha um avô em Pink Floyd e Genesis em altos e gritos, só eu. É verdade que também me convidava e eu ia com ele à ópera. À ópera de ver, não era daquela de ouvir da minha avó que me fazia disparar com a cadela para o telhado onde nos deitávamos as duas, tão bom, o calorzinho das telhas mornas, a aspereza dos finíssimos líquenes amarelos, ali, debaixo daquele azul todo também éramos andorinhas felizes, e nem um minuto passava, nem um segundo beliscava aquele azul imaculado de eternidade.

Ia com o meu avô à ópera, na RTP, a preto e branco. O que não fazia diferença nenhuma porque como nunca tinha ido à outra ópera, na sala mesmo sala de teatro onde a coisa estava a decorrer, e como era tudo em estrangeiro, ai que sorte filmarem isto enquanto está a acontecer e ver-se aqui em Portugal, não é avô? Quando era muito pequena tinha, não sabia, mas tinha, uma ideia avançada do tempo e também da tecnologia: tudo quanto passava na televisão, e eu adorava de paixão incompreendida, era uma grande sorte ter sido filmado porque estava a acontecer em directo naquele exacto instante. Pensava que, por mero acaso, as câmaras estavam lá e tinham seguido aquele acontecimento. Como nunca me lembrei de ter dúvidas, ninguém se lembrou de me explicar. Até que um dia, mais uma vez: uau!, que sorte filmarem isto tudo, quem havia de dizer que já havia televisão no tempo das damas antigas? O quê? O que é que tu estás para aí a dizer? Pronto. Acabou-se o tempo circular com emissões em directo para dentro das televisões de todas as casas.
O meu avô era diferente. Dizia-me – por tu, o meu avô tratava-me sempre por tu: vai pedir que te ponham um lindo vestido de festa, vamos à ópera esta noite. Então, bem penteada, de vestido de veludo, de facto, o velho sofá rosa-velho da salinha de televisão também estava vestido de veludo, papava aqueles dramas com legendagem feita pelo meu avô. Adorava. Quanto mais tragédia, quanto pior, melhor. O problema é que acordava sempre na cama, já de pijama. Nunca via o fim. O que aconteceu? Morreram todos. A sério? Sim. Como? O como variava. Foi o Lobo Mau. Uma bomba. O imperador da China mandou cortar-lhes a cabeça - quem havia de dizer, e sem ter aparecido um único chinês até me ter deixado dormir, ó que falta de sorte não ter visto um único chinês... Como comprovei posteriormente, a mortandade estava aí ao nível da futura Guerra dos Tronos, mas não era total nem por causas mirabolantes. Enganar uma criança assim, avô?! Acha bem? Não tive oportunidade de lhe dizer, pois não, avô?, eu também acho. Que sorte! Merci.
Todavia não era nada disto que queria escrever. Não foi isto que planeei. Queria contar, por culpa, tão grande culpa do post do Henrique, que gosto tanto de boleros, quanto piores, melhores – e de salsa, mambo e otras cositas más... e mornas? Foi o meu avô quem me ensinou a gostar porque me ensinou a dançar. E bom, bom como desgraças de ópera, daquelas que até davam vontade de chorar, era o meu Bola de Nieve.
Agora já chega de dramalhão, agora dançamos. Esta é boa, é velhinha, toda a gente conhece, não é, mamá Inés? Todos los negros tomamos café... Ay mamá!