30 de janeiro de 2016

Alfabeto de Mulheres


RATNAVALI DE BHANGARH
Ratnavali era de uma beleza esplêndida. Nem as paredes do alto sétimo andar do palácio onde vivia a continham, nem as três linhas fortificadas à volta da cidade de Bhangarh a fechavam. O que esplende é da natureza do sol, é luz, e assim escapava-se pelas cinco portas da cidade para chegar aos confins do Rajastão. Os pretendentes, que jamais a haviam visto a não ser pelas pinturas fortuitas escorregadas das mãos bem untadas das servas, cegos de vontade da posse de tal beleza, propunham-se com a imagem dela desenhada no pensamento: Ratnavali junto da fonte rodeada de um casal de pavões; Ratnavali a oferecer uma tâmara ao macaco. Ratnavali secreta, no sétimo andar intocado de passos machos, vozes másculas, no ainda silêncio de um homem.
De facto, era exacta a beleza pintada: nela confluíam os rios do sangue mongol, timúrida até aos barlas, a perfeição de Rama e a devoção de Sita. E, de facto, era inexacta, pois não era apenas bela na linha que o tempo esculpe diluindo e miscigenando, tinha a graça da inteligência que é, essencialmente, a boa vontade e a bondade com discernimento.
Habituada ao poder pelas circunstâncias familiares da elite guerreira e política que eram as suas, mas proibido o exercício do poder por ser mulher, dedicara-se ao estudo. Primeiro das coisas naturais, e logo das coisas contra-natura, como sempre se segue - o que é a magia, ou o milagre, senão a obra à revelia da lei da natureza? Conhecia a magia branca, a magia negra, não era refém de nenhuma, respirava os tantras - não era em vão que lhe chamavam Pérola. Nas horas vagas bordava tapeçarias lentas, recitativas de encantamentos longos, memorizados em verso como qualquer mago sabe: não há porta que a voz não abra. Fazer o quê se a idade medieva que o mundo escolheu para trazer Ratnavali à vida, era fálica? O que não se tece no claro aparece no escuro: o feminino não é força que se cale.
Não é porque não se compreende um evento que ele deixa de ter a sua raiz no sopro do universo.
Singhia era um mago de primeira grandeza e idade desconhecida: há pelo menos quarenta anos que parecia ter quarenta anos. Era um homem alto, forte, ágil, a face de um deus, os modos de um príncipe, a língua de um poeta, e um buraco escuro no lugar do coração. Dele se dizia que era o dedo indicador de Akbar, o Grande, apontando a destruição. Filho da escola da mão esquerda, dominava poder do sexo, conhecia a verdade na mentira que é a embriaguez do vinho, a regra do dinheiro, o efeito do sangue frio dos répteis, a qualidade da energia no sangue quente da carne e assim nada se lhe negava porque nada se lhe opunha.
A primeira vez que vira Ratnavali fora num sonho. Ela era menina, e mesmo assim ele soubera que seria com ela que chegaria ao único lugar que lhe estava vedado: à santidade. De degrau em degrau fora descendo a escada do poder sabendo que a subia: deixou Akbar, que até ao fim se perguntou o que lhe passara pela cabeça no dia em que havia prescindido de tal homem, e ficou ao serviço do seu mais amado General, Man Singh, rei depois da morte do pai e comandante de 7000 homens, a pé e montados a cavalo e elefante. Antes que este pudesse engrandecê-lo como queria, já Singhia estava ao serviço irmão mais novo dele, e outra vez irmão pelas armas e em valor, Madho Singh.
Madho Singh, das fundações erguidas por Raja Bhagwant Das, levantou a próspera cidade Bhangarh do chão, fez crescer floridas trepadeiras de pedra pelas colunas, rendilhou capitéis, rasgou arcos em delícias curvas, coloriu os havelis de tanto detalhe que o olhar de uma vida não chegaria para o abarcar. Dez mil pessoas calcorreavam as ruas calcetadas, desciam ao bazar, entravam e saíam pelas cinco portas. Rezava-se nos templos, submergia-se na piscina, ia-se ao prazer no palácio das prostitutas. As leis cumpriam-se. E os animais vadiavam por debaixo dos tectos de sombra das figueiras bengalesas de grandes saudades caídas como ramos. Bhangarh crescia. Depois Madho Singh foi pai do seu filho e o seu filho foi pai de Ratnavali.
A primeira vez que Ratnavali vira Singhia fora num pesadelo. Ela era uma menina e mesmo assim soubera que ele era a devoração, a boca aberta para o insaciável vazio onde cairia. Mas nada poderia fazer. Sabia que o absoluto não é constituído por partes, o um é igual ao todo.
Apesar de Shingia ser o conselheiro dilecto de Chhatr Singh, não poderia jamais pretender Ratnavali. Sequer poderia alguma vez olhá-la. Mas pode o desejo deixar de desejar só porque queima na própria proibição? Apenas crescer.
Que quer o pecador mais que pecar? Ser santo. Que quer o santo? Estar com os pecadores, e entre toda a obra divina que é a única forma viva de estar em Deus. Não é um mistério. Ela estava. Quando se deitava tinha por travesseiro o céu escuro. Ele não e sabia-o. Conhecer, que é a origem de todo o bem, não deixa de ser a origem de todo o mal. O que se deseja? O que não se tem e a alma pede. É proibido? Seja. O que se combate? A ignorância que não sabe que já tem tudo.
Foi por isto que Shingia, no bazar, seguiu a serva de Ratnavali enquanto ela comprava o óleo de peónias chinesas a gosto muito pérsico da ama, óleo para a mistura com que lhe lavaria os cabelos. Foi por isto que encantou o líquido e ele aqueceu e se fez ambarino. Foi por tão bem tê-lo encantado que sorriu. Assim que o aroma entrasse no sétimo andar do palácio, antes ainda de lhe tocar num só fio dos cabelos negros, ela inspirá-lo-ia, há segredos no prana, e como um rio os nadis levá-lo-iam até que o corpo de Ratnavali, primeiro, depois o pensamento, se abrissem a Shingia e o coração dela florisse de amor.
As varandas de onde as mulheres nobres viam eram fechadas à vida de fora por um véu de pedra rendada, mármore, sempre ali houvera muito mármore na barriga das montanhas, ou então de madeira entalhada desde a balaustrada e até ao tecto, caixas quase suspensas da parede, aqueles véus de ver o mundo do alto, sem ser visto. Era ali, e ao início da noite, contemplando a subida da lua até ao cume do céu, e só uma candeia ao fundo para não perturbar a hora, que Ratnavali gostava de lavar o cabelo, penteá-lo, perfumá-lo.
Anjali entrou com a bacia cheia da água preparada com o óleo. Atrás, outra serva trazia um jarro, mais água dentro, e diluído nela o vinagre de vinho doce com que enxaguaria os lindos cabelos até ao brilho - pétalas afundavam-se.
A lua baixa. Ratnavali olhava as montanhas. Anjali aproximou-se da varanda. A luz macia bateu na água e a água sorriu. Ratnavali viu os dentes da lua na água. Susteve a respiração. Agarrou a bacia bruscamente e lançou a água para fora. O encantamento era tal que toda a parede de renda se partiu, precipitando-se no pátio com a fúria de punhos agudos.
E atingiu Shingia que passava. Assim, imprevista, lhe chegou a morte. Fora chamado inesperadamente a prestar conselho por causa das movimentações na vizinha Ajabgarh: apedrejado por uma gota de óleo que ele próprio encantara. Agonizava quando viu o que os seus olhos mais sonharam. Rasgado o véu de mármore, Ratnavali, emoldurada pela noite, imóvel sobre o vazio, parecia-lhe que flutuava - porém tinha os pés bem assentes no que sobrara da varanda. Brilhava mais que a lua.
A boca de Shingia abriu-se numa maldição:
- Caí eu e cairão comigo todas as pedras de Bhangarh, nem uma alma subirá para reencarnar, ficarão soterradas como o meu corpo.
Ratnavali respondeu-lhe:
- Não posso desfazer o que foi feito, mas posso fazer com o que foi desfeito: nem uma só pedra cairá que não seja pela mão do tempo, nenhuma alma ficará presa da noite ainda que nenhum corpo possa respirar veneno. Bhangarh ficará como sinal: não há mal que não caiba no bem.
Desse momento em diante, Bhangarh ficou para sempre desabitada. Nenhum corpo foi encontrado. Jamais. Nem Ratnavali. Nem Shingia.
Bhangarh-Description
Bhangarh é uma cidade fantasma onde é proibido entrar entre o pôr e o nascer do sol.