30 de janeiro de 2016

Alfabeto de Mulheres


RATNAVALI DE BHANGARH
Ratnavali era de uma beleza esplêndida. Nem as paredes do alto sétimo andar do palácio onde vivia a continham, nem as três linhas fortificadas à volta da cidade de Bhangarh a fechavam. O que esplende é da natureza do sol, é luz, e assim escapava-se pelas cinco portas da cidade para chegar aos confins do Rajastão. Os pretendentes, que jamais a haviam visto a não ser pelas pinturas fortuitas escorregadas das mãos bem untadas das servas, cegos de vontade da posse de tal beleza, propunham-se com a imagem dela desenhada no pensamento: Ratnavali junto da fonte rodeada de um casal de pavões; Ratnavali a oferecer uma tâmara ao macaco. Ratnavali secreta, no sétimo andar intocado de passos machos, vozes másculas, no ainda silêncio de um homem.
De facto, era exacta a beleza pintada: nela confluíam os rios do sangue mongol, timúrida até aos barlas, a perfeição de Rama e a devoção de Sita. E, de facto, era inexacta, pois não era apenas bela na linha que o tempo esculpe diluindo e miscigenando, tinha a graça da inteligência que é, essencialmente, a boa vontade e a bondade com discernimento.
Habituada ao poder pelas circunstâncias familiares da elite guerreira e política que eram as suas, mas proibido o exercício do poder por ser mulher, dedicara-se ao estudo. Primeiro das coisas naturais, e logo das coisas contra-natura, como sempre se segue - o que é a magia, ou o milagre, senão a obra à revelia da lei da natureza? Conhecia a magia branca, a magia negra, não era refém de nenhuma, respirava os tantras - não era em vão que lhe chamavam Pérola. Nas horas vagas bordava tapeçarias lentas, recitativas de encantamentos longos, memorizados em verso como qualquer mago sabe: não há porta que a voz não abra. Fazer o quê se a idade medieva que o mundo escolheu para trazer Ratnavali à vida, era fálica? O que não se tece no claro aparece no escuro: o feminino não é força que se cale.
Não é porque não se compreende um evento que ele deixa de ter a sua raiz no sopro do universo.
Singhia era um mago de primeira grandeza e idade desconhecida: há pelo menos quarenta anos que parecia ter quarenta anos. Era um homem alto, forte, ágil, a face de um deus, os modos de um príncipe, a língua de um poeta, e um buraco escuro no lugar do coração. Dele se dizia que era o dedo indicador de Akbar, o Grande, apontando a destruição. Filho da escola da mão esquerda, dominava poder do sexo, conhecia a verdade na mentira que é a embriaguez do vinho, a regra do dinheiro, o efeito do sangue frio dos répteis, a qualidade da energia no sangue quente da carne e assim nada se lhe negava porque nada se lhe opunha.
A primeira vez que vira Ratnavali fora num sonho. Ela era menina, e mesmo assim ele soubera que seria com ela que chegaria ao único lugar que lhe estava vedado: à santidade. De degrau em degrau fora descendo a escada do poder sabendo que a subia: deixou Akbar, que até ao fim se perguntou o que lhe passara pela cabeça no dia em que havia prescindido de tal homem, e ficou ao serviço do seu mais amado General, Man Singh, rei depois da morte do pai e comandante de 7000 homens, a pé e montados a cavalo e elefante. Antes que este pudesse engrandecê-lo como queria, já Singhia estava ao serviço irmão mais novo dele, e outra vez irmão pelas armas e em valor, Madho Singh.
Madho Singh, das fundações erguidas por Raja Bhagwant Das, levantou a próspera cidade Bhangarh do chão, fez crescer floridas trepadeiras de pedra pelas colunas, rendilhou capitéis, rasgou arcos em delícias curvas, coloriu os havelis de tanto detalhe que o olhar de uma vida não chegaria para o abarcar. Dez mil pessoas calcorreavam as ruas calcetadas, desciam ao bazar, entravam e saíam pelas cinco portas. Rezava-se nos templos, submergia-se na piscina, ia-se ao prazer no palácio das prostitutas. As leis cumpriam-se. E os animais vadiavam por debaixo dos tectos de sombra das figueiras bengalesas de grandes saudades caídas como ramos. Bhangarh crescia. Depois Madho Singh foi pai do seu filho e o seu filho foi pai de Ratnavali.
A primeira vez que Ratnavali vira Singhia fora num pesadelo. Ela era uma menina e mesmo assim soubera que ele era a devoração, a boca aberta para o insaciável vazio onde cairia. Mas nada poderia fazer. Sabia que o absoluto não é constituído por partes, o um é igual ao todo.
Apesar de Shingia ser o conselheiro dilecto de Chhatr Singh, não poderia jamais pretender Ratnavali. Sequer poderia alguma vez olhá-la. Mas pode o desejo deixar de desejar só porque queima na própria proibição? Apenas crescer.
Que quer o pecador mais que pecar? Ser santo. Que quer o santo? Estar com os pecadores, e entre toda a obra divina que é a única forma viva de estar em Deus. Não é um mistério. Ela estava. Quando se deitava tinha por travesseiro o céu escuro. Ele não e sabia-o. Conhecer, que é a origem de todo o bem, não deixa de ser a origem de todo o mal. O que se deseja? O que não se tem e a alma pede. É proibido? Seja. O que se combate? A ignorância que não sabe que já tem tudo.
Foi por isto que Shingia, no bazar, seguiu a serva de Ratnavali enquanto ela comprava o óleo de peónias chinesas a gosto muito pérsico da ama, óleo para a mistura com que lhe lavaria os cabelos. Foi por isto que encantou o líquido e ele aqueceu e se fez ambarino. Foi por tão bem tê-lo encantado que sorriu. Assim que o aroma entrasse no sétimo andar do palácio, antes ainda de lhe tocar num só fio dos cabelos negros, ela inspirá-lo-ia, há segredos no prana, e como um rio os nadis levá-lo-iam até que o corpo de Ratnavali, primeiro, depois o pensamento, se abrissem a Shingia e o coração dela florisse de amor.
As varandas de onde as mulheres nobres viam eram fechadas à vida de fora por um véu de pedra rendada, mármore, sempre ali houvera muito mármore na barriga das montanhas, ou então de madeira entalhada desde a balaustrada e até ao tecto, caixas quase suspensas da parede, aqueles véus de ver o mundo do alto, sem ser visto. Era ali, e ao início da noite, contemplando a subida da lua até ao cume do céu, e só uma candeia ao fundo para não perturbar a hora, que Ratnavali gostava de lavar o cabelo, penteá-lo, perfumá-lo.
Anjali entrou com a bacia cheia da água preparada com o óleo. Atrás, outra serva trazia um jarro, mais água dentro, e diluído nela o vinagre de vinho doce com que enxaguaria os lindos cabelos até ao brilho - pétalas afundavam-se.
A lua baixa. Ratnavali olhava as montanhas. Anjali aproximou-se da varanda. A luz macia bateu na água e a água sorriu. Ratnavali viu os dentes da lua na água. Susteve a respiração. Agarrou a bacia bruscamente e lançou a água para fora. O encantamento era tal que toda a parede de renda se partiu, precipitando-se no pátio com a fúria de punhos agudos.
E atingiu Shingia que passava. Assim, imprevista, lhe chegou a morte. Fora chamado inesperadamente a prestar conselho por causa das movimentações na vizinha Ajabgarh: apedrejado por uma gota de óleo que ele próprio encantara. Agonizava quando viu o que os seus olhos mais sonharam. Rasgado o véu de mármore, Ratnavali, emoldurada pela noite, imóvel sobre o vazio, parecia-lhe que flutuava - porém tinha os pés bem assentes no que sobrara da varanda. Brilhava mais que a lua.
A boca de Shingia abriu-se numa maldição:
- Caí eu e cairão comigo todas as pedras de Bhangarh, nem uma alma subirá para reencarnar, ficarão soterradas como o meu corpo.
Ratnavali respondeu-lhe:
- Não posso desfazer o que foi feito, mas posso fazer com o que foi desfeito: nem uma só pedra cairá que não seja pela mão do tempo, nenhuma alma ficará presa da noite ainda que nenhum corpo possa respirar veneno. Bhangarh ficará como sinal: não há mal que não caiba no bem.
Desse momento em diante, Bhangarh ficou para sempre desabitada. Nenhum corpo foi encontrado. Jamais. Nem Ratnavali. Nem Shingia.
Bhangarh-Description
Bhangarh é uma cidade fantasma onde é proibido entrar entre o pôr e o nascer do sol.

27 de janeiro de 2016

Biblioteca

BIBLIOTECA
Hoje entrei no labi­rinto de Bor­ges
para procurar o livro que estou a escre­ver: 
como pode­ria não o encontrar, se o texto 
e todas as suas vari­a­ções
estão per­fei­ta­mente inde­xa­das
e aces­sí­veis no cen­tro da estante?, ali,
ali mesmo, no meu plexo solar,
onde o mar se expande e a espuma me
toca os pas­sos e hume­dece os tacos
do cor­re­dor desta biblioteca.

26 de janeiro de 2016

Percebi bem?


O LADO DE LÁ
Foi do grandíssimo emaranhado da estação de camionetas de Boston, logo no primeiro lugar do lado direito, encostada à janela e com toda a visibilidade adiante, que parti em direcção a Sieth, a cidadezinha mais a Norte e no ponto mais alto, já na fronteira com o Canadá. Em voltas, sempre a subir - apenas uma longa descida em linha recta, pouco acima do nível do mar, nas primeiras horas da viagem.
Quando cheguei a Sieth, fui surpreendida por uma catedral que, não sendo muito grande, era toda a Sieth. Não havia mais do que aquilo…
Assente na escarpa, o átrio largo à frente, e ao fundo, em perfeito equilíbrio, o edifício maneirista. Mal saí do autocarro, eu e os outros, começou a representação da Paixão de Cristo. Estamos na Páscoa? Várias peças desencaixadas, anacrónicas, de geografia e sociologia rebeldes, organizaram uma harmonia exemplar: maneirismo e filipinos católicos, a belíssima igreja sobre a escarpa e a pique, e ao longe, um nó de auto-estradas bem iluminadas. Um quadro-vivo.
Comecei a tirar fotografias com o telemóvel – queria enviá-las ao Schultz, gostava tanto que ele estivesse ali a ver aquilo comigo. Primeiro à igreja. Depois à população de actores. Aproximei-me do limite da montanha para fotografar as estradas ao fundo, lá em baixo. Eu, sem vertigens… Auto-estradas lindas na sua geometria de curvas e rectas, laçadas de trânsito sempre a fluir, iluminando a noite.
Foi nessa altura que percebi: estava no fim do mundo como ele é conhecido, do lado de lá era já o futuro. Quero dizer, estava no fim da vida. Para experimentar o que tinha adiante, teria de morrer primeiro. Percebi bem?
- Sieth não é o mesmo que scythe?
- Não sabia. Acho que não conhecia qualquer uma das duas palavras - ainda por cima quando acordei lembrei-me dos Sith, Stars Wars... Talvez tenha sonhado em inglês para não saber.
- Então como é que soube?
- Se calhar quero o eu futuro.

20 de janeiro de 2016

Amar, viajar, dar...

Hoje fui ao cemitério. Não por motivos neo-ultra-românticos ainda que goste de cemitérios - um dia conto. Fui apenas porque podia cortar caminho. Na verdade, já não podia com um gato pelo rabo. Mal entrei, meia dúzia de passos dentro, e zás!, percebo sem sombra de dúvida a fonte de inspiração do sucesso editorial e cinematográfico, Comer, Rezar, Amar.
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Como se isto não fosse suficiente, fico completamente esclarecida quanto à origem da expressão, olha que vais de carrinho...
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E se eu morresse


SAMBA DE UMA NOTA SÓ
Penso que subestimamos o que podemos fazer com o tempo que nos falta para viver. E sobreestimamos o que conseguimos fazer num mês.
Um mês é uma unidade maravilhosa, misteriosa, de tempo ideal. Num mês pode-se mudar de alimentação e passar a fazer a dieta perfeita. Num mês, em dez horas de rigoroso trabalho, pode-se escrever um quinto da primeira versão de um romance. Num mês, ó! num mês conseguimos passar a treinar duas vezes por dia e fazer meditação ao acordar, ainda antes de sair da cama, e logo depois uma yogazinha básica. É natural. Um mês é fácil, é uma corrida de velocidade. Um objectivo: anda cá que és meu - ou não é isto que dizemos aos nossos objectivos? E ainda se faz o jantar. Leva o carro à revisão e o cão ao veterinário. Um mês cumpre-se. Um mês é fácil. Mas não dá para, além de tudo o mais que num mês se faça, ir à Patagónia e a um sítio no Quénia que eu cá sei e a savana lá em baixo… O problema do mês é o raio do nosso problema: não é só o mês que é ideal, o eu também é ideal num mês e não se compadece do outro eu que somos nós. Correr cansa, o esforço, por definição, é o caminho do cansaço e a Patagónia não se arruma entre a ida ao supermercado e às fotocópias. E o Quénia também não.
Se este ano for o último, não quero cumprir um mês de eu ideal – sim, e se eu estiver nas últimas e não souber, sabemos lá isso de hora morte?, não, não sabemos. Tenha um ou vinte anos de prazo, quero cumprir-me a mim. Todos os dias. Mesmo que seja só um bocadinho de cada vez.
Há aquela ínfima parte que depende só de mim, não há? O lugar de ser livre, ou melhor, escrava do que sou. Porque a parte de leão da vida depende de tudo e todos, da treta macro-económica às placas tectónicas - nisto não vale a pena pensar.
E se eu morresse em dois, vá, cinco anos? Ficaria tão triste se não me cumprisse em quê? Estava a pensar nisto. E descobri que sou um samba de uma nota só: Alegria. A alegria das letras e a alegria do corpo. Daqui a cinco anos conto como correu..
  1. Há um livro que gostava tanto de adaptar ao cinema. Nem me interessa que já o tenham adaptado ao cinema, ao teatro, à televisão, ao diabo a quatro. Sei muito bem o filme que quero ver.
  2. Há poemas que não consegui escrever ainda. E espero por eles. Que cheguem.
  3. O mar chão, o Amor e o Cão a deslizar numa prancha de sup, o solinho morno, tão bom. A yoagzinha básica. Os passeios de bicicleta e o meu rico NYCB workout.
  4. Acabar este romance.
  5. Organizar e rever as shorts. O que adoro contos curtos… Escrever mais uns quantos para ter escolha para esse livro que Deus quer, tenho a certeza ou não sonhava com ele.
  6. Fazer uma antologia poética dos meus ricos poetas de uma vida.
  7. E o que adorava publicar poetas jovens, só dois ou três que fossem, pronto, um estrangeiro que não tivesse andado nunca em linhas portuguesas e dois miúdos desta pátria mal amada que é a língua portuguesa.

16 de janeiro de 2016

Ay mamá...


O meu avô era diferente. Ninguém tinha um avô em Pink Floyd e Genesis em altos e gritos, só eu. É verdade que também me convidava e eu ia com ele à ópera. À ópera de ver, não era daquela de ouvir da minha avó que me fazia disparar com a cadela para o telhado onde nos deitávamos as duas, tão bom, o calorzinho das telhas mornas, a aspereza dos finíssimos líquenes amarelos, ali, debaixo daquele azul todo também éramos andorinhas felizes, e nem um minuto passava, nem um segundo beliscava aquele azul imaculado de eternidade.

Ia com o meu avô à ópera, na RTP, a preto e branco. O que não fazia diferença nenhuma porque como nunca tinha ido à outra ópera, na sala mesmo sala de teatro onde a coisa estava a decorrer, e como era tudo em estrangeiro, ai que sorte filmarem isto enquanto está a acontecer e ver-se aqui em Portugal, não é avô? Quando era muito pequena tinha, não sabia, mas tinha, uma ideia avançada do tempo e também da tecnologia: tudo quanto passava na televisão, e eu adorava de paixão incompreendida, era uma grande sorte ter sido filmado porque estava a acontecer em directo naquele exacto instante. Pensava que, por mero acaso, as câmaras estavam lá e tinham seguido aquele acontecimento. Como nunca me lembrei de ter dúvidas, ninguém se lembrou de me explicar. Até que um dia, mais uma vez: uau!, que sorte filmarem isto tudo, quem havia de dizer que já havia televisão no tempo das damas antigas? O quê? O que é que tu estás para aí a dizer? Pronto. Acabou-se o tempo circular com emissões em directo para dentro das televisões de todas as casas.
O meu avô era diferente. Dizia-me – por tu, o meu avô tratava-me sempre por tu: vai pedir que te ponham um lindo vestido de festa, vamos à ópera esta noite. Então, bem penteada, de vestido de veludo, de facto, o velho sofá rosa-velho da salinha de televisão também estava vestido de veludo, papava aqueles dramas com legendagem feita pelo meu avô. Adorava. Quanto mais tragédia, quanto pior, melhor. O problema é que acordava sempre na cama, já de pijama. Nunca via o fim. O que aconteceu? Morreram todos. A sério? Sim. Como? O como variava. Foi o Lobo Mau. Uma bomba. O imperador da China mandou cortar-lhes a cabeça - quem havia de dizer, e sem ter aparecido um único chinês até me ter deixado dormir, ó que falta de sorte não ter visto um único chinês... Como comprovei posteriormente, a mortandade estava aí ao nível da futura Guerra dos Tronos, mas não era total nem por causas mirabolantes. Enganar uma criança assim, avô?! Acha bem? Não tive oportunidade de lhe dizer, pois não, avô?, eu também acho. Que sorte! Merci.
Todavia não era nada disto que queria escrever. Não foi isto que planeei. Queria contar, por culpa, tão grande culpa do post do Henrique, que gosto tanto de boleros, quanto piores, melhores – e de salsa, mambo e otras cositas más... e mornas? Foi o meu avô quem me ensinou a gostar porque me ensinou a dançar. E bom, bom como desgraças de ópera, daquelas que até davam vontade de chorar, era o meu Bola de Nieve.
Agora já chega de dramalhão, agora dançamos. Esta é boa, é velhinha, toda a gente conhece, não é, mamá Inés? Todos los negros tomamos café... Ay mamá!

12 de janeiro de 2016

Balneário

BALNEÁRIO

Vista num grande plano, 
a vida é um prazer 
daqueles que dói que se farta, 
daqueles tipo ginásio, sabes?, 
quando a gente ao fim do treino
não sabe se está a sorrir
ou a engolir o choro
porque deixou tudo o que tinha
no chão molhado de suor e pensa: 
não tenho mais nada, não há mais: 
não há braços, pernas, 
ar no peito, o que é isso?, 
não há corpo e é um mistério 
permanecer de pé 
a caminho do balneário.

7 de janeiro de 2016

O fim do mundo




Honra se deve àqueles que na vida
Termópilas fixaram p'ra guardar,
que do seu dever nunca se desviam
que nunca fogem ao que o dever dita
e justos são na acção e sempre rectos,
mas nunca perdem pena e compaixão;
se ricos, generosos, e se pobres
ainda generosos com seu pouco.
Que acodem sempre a todos quantos podem;
e, que à verdade sempre são fiéis,
mas não guardam rancor aos que são falsos.

 E honra ainda mais lhes é devida,
se já prevêem (são tantos os que o fazem),
que no fim há­‑de vir um Efiálte,
e os Persas no final hão­‑de passar.

Konstandinos Kavafis, Térmópilas

2084, La Fin du Monde, de Boualem Sansal, Gallimard, 2015
2084, La Fin du Monde, de Boualem Sansal, é um livro necessário. Explico.
Quando um jornalista se atira ao romance, é quase certo que escreverá sobre a notícia: a notícia do ano, o caso do ano, a política do ano. Enfim, da inflação de um acontecimento e das suas mil circunstâncias, faz o romance. Quando um escritor se atira a um romance, a notícia, o caso, ou a política, até podem ser o pretexto para o mergulho na natureza do homem ao lado da aventura da sintaxe do pensamento, de uma expressão criadora da língua, e dá-se a literatura. Há jornalistas que são grandes escritores. São raros, mas há. E a notícia não faz a literatura mesmo quando faz o romance - não é Truman Capote quem quer. O tempo e a política não fazem literatura mesmo quando fazem o romance – não é Orwell quem quer. E o ar do tempo muito menos a faz - não é Houellebeq quem quer. Nem Roth. Nem McCarthy.
Boualem Sansal, que nunca foi jornalista, fez um bom romance, circunstancial, necessário, a partir da sua experiência, da vida na primeira pessoa - que é a única maneira honesta de escrever. E a partir da política, do tempo e da notícia. Deu um passo atrás para ver objectivamente aquilo que dessa experiência era só subjectivo, porque um escritor não fala de si nem quando é de si que fala. E ancorou aquelas experiência e visão na literatura, mais concretamente em 1984 de Orwell. Não há em 2084La fin du monde, um bom romance, grande literatura como encontramos em Submission, de Houellebeq, a pretexto da mesma islamização. Há um remake de 1984. Porém é um remake muitíssimo adequado, a cautionary tale com as regras do mundo contemporâneo: se naquelas o perigo é o da transgressão da norma, neste o perigo é a norma. Então.
Em 2084, como em 1984, vive-se a experiência do totalitarismo. Porém um totalitarismo religioso que tem à cabeça Abi, profeta por direito divino e representante, Delegado, de Yolah – esse deus sem qualquer divindade. Percebemos progressivamente que Abistan, ou seja, toda a civilização conhecida, é a substanciação de Yolah. Vive-se de e para Yolah num quotidiano super-normativo e hiper-ritualizado, todavia onde o ritual substituiu o significado e o símbolo vale per si.
Quem, o que é Yolah? O embuste, o simulacro de Deus único, o poder total, absoluto, despótico. Não permite pensamento, só submissão. Nem memória de um tempo anterior pois não existe história. Nem diversidade: não há alteridade porque não há individualidade. Tudo e todos são diligentemente vigiados para a detecção de qualquer desvio – e não é que não haja privacidade, o que não pode haver é sequer a ideia de privacidade. Todos são eus. Não há outros. Não há diferença, se houver, é inimiga. Porém até a palavra inimigo supõe uma fraqueza incomportável do regime, e assim o inimigo, externo, desaparece do vocabulário: a língua, como em 1984 de Orwell, é uma e serve ao pensamento único. Pode ser-se aquilo que não se consegue, não se sabe pensar? O ser ideal não deverá ser consubstancial a Yolah, portanto, totalizante?
Ati, o herói de 2084, procura a fronteira deste estado, império feudal que, desde a raiz do pensamento a quase todos os lugares, se estendeu a tudo. E tudo ocupou, até o lado de dentro do ser. Que estado? O Estado Islâmico, claro.
Este é um livro fundamental: o debate do futuro da nossa civilização está por fazer. A política está por fazer. Não apenas por consequência desta ameaça à democracia, à laicidade do estado, aos direitos do homem, à mulher, à forma como vivemos. Afinal as mesmas democracia, laicidade, direitos, modos de ser mulher e de viver são o inimigo para o fundamentalismo islâmico. Não é uma questão religiosa, é civilizacional. Há um muro na Hungria. E há gente a fugir da guerra e da fome que tem, de certeza, lugar na Europa. Extremam-se as esquerdas e as direitas enquanto escalam o poder às costas do fundamentalismo religioso e do empobrecimento. O estalinismo não precisou de religião, nem Hitler na sua tomada do poder, só precisaram de eleger os inimigos… O silêncio e a omissão são a porta entreaberta do terror. Doméstico ou global.
E que diremos a quem vem depois de nós?

5 de janeiro de 2016

Amén! Espirrou?, santinha...

Este texto tem dez anos. Publiquei-o em 2006, no blog Mátria Minha, a minha primeira aventura online - nem sabia fazer links...


AMÉN! ESPIRROU?, SANTINHA...
As crianças têm muitas vezes uma costela teatreira. Não tem nada a ver com talento ou qualquer outra competência das dignas artes de Talma. Faz parte da natureza exploratória da infância, esta dramatização da realidade e os pais, com excepção dos menos avisados, não ficam a pensar que lhes encarnou nos filhos o espírito do supra citado François-Joseph nem o de Sarah Bernhardt.
Ora, algures lá pelo meio da terceira classe tive um ataque de misticismo. Para a minha anti-clerical avó, a mesma que me enfiou num colégio de freiras, seria uma coisa da natureza dos ataques de paludismo, ou de outro ismo qualquer de que se conhecesse a existência mas não fosse aplicável ao nosso clima, perdão, à nossa vida.
Discreta como sempre fui ao longo da infância, planava pela casa numa suavidade nunca antes vista, de olhos a fixar os candeeiros do tecto, mãos postas e, por absoluta inspiração, de toalha de rosto a cobrir os cabelos já numa antecipação de convento.
Após uma retórica indagação, que despropósito é esse? Vá já por a toalha na casa de banho!, fui sumariamente ignorada. Mas avó, espere, não posso, estou a ensaiar para ser freira, é obrigatório usar véu! Este desconhecimento básico das regras conventuais mostrava muito bem que o despropósito não era meu. Porém não podia ser explicativa, tinha de ser boa e responder pausadamente como convinha ao meu novo estado religioso. Este estado era, aliás, de grande exigência. Raio de mundo de proibidos... Não correr, não andar aos saltos, fazer o sacrifício de não andar de bicicleta, não cantar pela casa as canções dos Gemini com coreografia em tempo real. E o jeito monocórdico-santíssimo de falar que inventei estava a dar cabo de mim. Contudo tinha de ser para me preparar para uma longa vida de sacrifícios e abnegação.
A coisa arrastava-se. Um dia. Dois. Uma semana. Rezava de joelhos ao lado da cama, de preferência se alguém estivesse a ver. Não por exibicionismo, Deus me livre, que ideia de pecador, era só para mostrar a seriedade da minha vocação. E assim mesmo, zás, silêncio, nem um eco dos descrentes. Pagãos, bezerro de ouro e mais não sei o quê! Tornou-se rotina. Chegava a casa, punha o véu, ficava tão boa quanto a imaginação permitia conceber uma bondade bíblica de Novo Testamento e… aborrecia-me. A Madre Superior quer que faça alguma coisa, posso ajudar? Já te avisei para não me chamares Madre Superior. Mau, mau! Ups, perigo: o dois em um: ser tratada por tu e palavras chave em modo repeat. Era tão perigoso o mau, mau! com prolongamento do último au, quanto o bom, bom! com o último om a descer para graves de barítono. A falta de discriminação entre as duas avaliações repetidas de natureza antagónica e aleatória, bom-bom/mau-mau, nunca me deixou em dúvida sobre o desfecho: fim das advertências = castigo.
A minha avó, ao contrário da minha mãe, tinha sérias reservas quanto à utilização das técnicas pedagogias mais recentes. Socorria-se muito de milenares técnicas de persuasão: Porquê? Mas que desplante, porque sim, porque eu mandei! Por isso, foi com grande surpresa que, já farta do drama religioso, a ouvi dizer à minha mãe: Se a minha neta quiser ser freira, que grande desgosto me dá, preferia que fosse dançarina de cabaret… A menos que Deus exista, aí o caso já é diferente! Mãe, não diga uma coisa dessas. Que quer que diga, é que já não se aguenta, se fosse só a toalha ainda era como o outro - nunca soube quem era este outro de costas tão largas que aguentava tudo -, agora isto da Madre Superior para cá e Minha Irmã para lá, dá-me nervos!
Este embate de informações exigia que me sentasse. Terríveis e apocalípticas revelações. A saber: ser freira e ser dançarina de cabaret não eram formas desejáveis de estar na vida - cabaret, ora bem, haveria de ser qualquer coisa da ordem de um café, mas com música, mais escuro e com mais fumo, como nos livros do Lucky Luke. E pelos vistos dançarina não era a mesma coisa que bailarina porque eu andava no ballet há três anos e isso era bem visto lá em casa.  Mas a grande, grande bomba era Deus ser opcional... A verdade não era, portanto, absoluta. Deus, que eu conhecia de tu cá tu lá, ou mais propriamente de o Senhor aí em cima, cheio de poder, e eu cá em baixo com um certo temor, para a minha avó não existia, ou melhor, havia uma elevada probalidade de não existir.
Foi a morte do véu, ai, da toalha. A partir desse dia, e até ao segundo ataque de misticismo, de cada vez que olhava para a capa do livro das edições Paulistas com os pastorinhos, elas de lenço e de joelhos, ele de cajado e gorro castanho, muito devotos em contemplação à Senhora que pairava ecologicamente acima dos ramos da azinheira, pensava: estão a vê-la, pensam que estão a vê-la, ou disseram só que a viram?