17 de novembro de 2015

Contas de multiplicar

Não havia esta Anita quando eu era pequena. Fui pequena em Hermes Baby!

Quando era muito pequenina, ainda antes da escola, havia esta canção. E se eu a cantei...
Sou boneca articulada
e dou honra ao construtor
perfeita e bem acabada
até meu corpo tem calor
Tenho corda para falar
pra gestos e movimentos
enquanto a corda durar
mostrarei os merecimentos
Sei contar de um até cem
diminuir e também somar
porém corda ainda não tenho
pra contas de multiplicar
Sei dizer o ABC
soletrar o Bê à Bá
de progresso o que se vê
sei dizer mamã papá
No palco sou um portento
na valsa ninguém me iguala
todos dizem que talento
quer no campo quer na sala
Mais diria se pudesse
mas tenho de me calar
boa noite meus senhores
tenho a corda a terminar
A minha avó nunca leu um poema meu, publicado, e sobre o qual me ouvisse dizer, estou em paz com este poema. Logo ela que se fartava de pensar esta miúda não tem conserto, que chatice, já nasceu acabada, e o meu avô mas em que mundo é que tu vives? Não é verdade, avó, eu sou em construção, olhe, como a Sagrada Família lá de Barcelona, às vezes até parece que me desfaço, mas é sempre em direcção ao céu ainda que o meu reino seja mesmo deste mundo cá em baixo, avô, a grua, a pedra... Há pessoas que demoram o seu tempo: sou dessas. Chegará para dar honra aos construtores? Bem, os construtores honram-me, e isso chega.
Quando tinha catorze, quinze anos, fazia sonetos horríveis de sílabas irrepreensíveis de um até cem, diminuir, somar. E a minha avó, isto já era mau quando a Florbela Espanca estava viva... E anos e anos depois, não me queria atirar ao romance: tinha medo que aquela fome me devorasse. Ainda tenho, mas vamos dançando uma com a outra, a contar os passos aqui, mais livres ali. Estou em paz com esta tensão, aceito esta valsa, e aos poemas, e a tudo quando alinhe uma letra após a outra em caligrafia imperfeita e inacabada - fazer o quê, se o meu corpo tem calor?
Quando dou por mim, quando me observo, parece que a minha vida é isto, um deserto de tudo o resto e, de repente, um oásis de versos. Uma boneca articulada. Mas é mentira. Todas as palavras que dizem me desaguam no ouvido, há literatura puríssima aí pela boca dos mercados, na solidão dos de telemóvel perpétuo, nos títulos dos jornais. Escrever também é tocar de ouvido. E vejo tudo, vejo com muita atenção, desde que esteja distraída de ver fico logo com os olhos do Lobo Mau, vejo melhor: há milhares de mundos que se puseram em movimento, em cada pessoa, para chegarem ali. Costumo pensar, por ser verdade, meu Deus, não há ficção para tanta realidade, que eu tenha só um bocadinho de pulso para enfiar isto página adentro. É natural que a minha vida pareça um deserto de conseguimentos, não há filhos para ir buscar e levar ao colégio, ao ballet, nem o tal Amor ao meu lado, mamã e papá, nem preocupações de pôr o frango a descongelar. Sou o que sou. E agora, boa noite meus senhores.