Eye hath not seen, nor ear heard, neither have entered into the heart of man, the things which God hath prepared for them that love him.
1 Corinthians 2:9, KJV
CARTA DO ESCURO DA MANHÃ
A minha poesia não arrasta mitologias,
não assenta em olímpicos pés,
nem tem anjos em visita nem fantasmas,
nem estrangeiras brumas de Irlanda tecidas
a finos ouros semânticos: repetitivo gongorismo
só quero na filigrana, sim, a de Viana –
I'm a material girl até no apreço barroco
pelos Santos iluminados
com as suas grandes mãos desproporcionadas
para nos educar o olhar para a sua intervenção -
escola de arte subliminal.
A mão faz. A mão maior faz mais. Faz melhor.
A mão faz o pensamento que faz a mão.
E assim se faz o texto, de desproporção barroca,
de atenção à palavra, todo o amor é atenção,
nós pela mão do Santo
e ele pela nossa,
ambos para glorificar o Deus dos nossos pais.
Deus só reconheço um,
o que os meus olhos não sabem ver,
e vêem,
nem os meus ouvidos ouvir,
e ouvem,
nem coração que trouxe para usar
no rés-do-chão do pensamento pode
conceber a beleza da ordem
onde florescem as equações para a madureza da flor,
nem a beleza do caos devorador de eras
sem que um só dia passe,
não pode, e assim mesmo,
sinto-a com a razão puríssima
no sopro com que uma letra
agarra outra pelos versos do tempo.
Portanto de brumas tecidas e de outros renhonhós
de linguagem bolorenta
que melancólica se canta ou lamenta,
estamos conversados – quando era pequena,
se uma coisa me desagradava, revirava os olhos,
encolhia os ombros, bufava, pfff…
e a minha avó, menos expressão corporal
que não a estou a educar para mimo.
Para o que me educaram, não sei.
Olho em volta e decerto acertei na mouche em desconseguir.
Tudo. A minha geração planeia a reforma.
E conta os anos que faltam para enfiar os filhos
na universidade. E o que fará com o resto da vida,
há-de ser uma segunda vida, livre e tal…
Sabem tudo. Viram tudo. Fizeram tudo.
Príncipes do Mundo e são pobres filhos de Góngora.
Se me imaginasse reformada, matava-me:
estou só a começar, mal tenho idade para ser mãe:
I'm an absolute beginner with eyes complety open,
e conforme foi escrito antes dos séculos,
no escuro desta manhã,
só de saborear a alegria do corpo a emergir do sono,
escada do espírito que tudo procura, as coisas mais fundas
onde o medo nos junta e a fraqueza aproxima,
e as mais altas tão longe da sabedoria dos homens
já em voo para o Poder de Deus,
só pela alegria, sei que há um sol de vinte e quatro quilates
aqui escondido.
não assenta em olímpicos pés,
nem tem anjos em visita nem fantasmas,
nem estrangeiras brumas de Irlanda tecidas
a finos ouros semânticos: repetitivo gongorismo
só quero na filigrana, sim, a de Viana –
I'm a material girl até no apreço barroco
pelos Santos iluminados
com as suas grandes mãos desproporcionadas
para nos educar o olhar para a sua intervenção -
escola de arte subliminal.
A mão faz. A mão maior faz mais. Faz melhor.
A mão faz o pensamento que faz a mão.
E assim se faz o texto, de desproporção barroca,
de atenção à palavra, todo o amor é atenção,
nós pela mão do Santo
e ele pela nossa,
ambos para glorificar o Deus dos nossos pais.
Deus só reconheço um,
o que os meus olhos não sabem ver,
e vêem,
nem os meus ouvidos ouvir,
e ouvem,
nem coração que trouxe para usar
no rés-do-chão do pensamento pode
conceber a beleza da ordem
onde florescem as equações para a madureza da flor,
nem a beleza do caos devorador de eras
sem que um só dia passe,
não pode, e assim mesmo,
sinto-a com a razão puríssima
no sopro com que uma letra
agarra outra pelos versos do tempo.
Portanto de brumas tecidas e de outros renhonhós
de linguagem bolorenta
que melancólica se canta ou lamenta,
estamos conversados – quando era pequena,
se uma coisa me desagradava, revirava os olhos,
encolhia os ombros, bufava, pfff…
e a minha avó, menos expressão corporal
que não a estou a educar para mimo.
Para o que me educaram, não sei.
Olho em volta e decerto acertei na mouche em desconseguir.
Tudo. A minha geração planeia a reforma.
E conta os anos que faltam para enfiar os filhos
na universidade. E o que fará com o resto da vida,
há-de ser uma segunda vida, livre e tal…
Sabem tudo. Viram tudo. Fizeram tudo.
Príncipes do Mundo e são pobres filhos de Góngora.
Se me imaginasse reformada, matava-me:
estou só a começar, mal tenho idade para ser mãe:
I'm an absolute beginner with eyes complety open,
e conforme foi escrito antes dos séculos,
no escuro desta manhã,
só de saborear a alegria do corpo a emergir do sono,
escada do espírito que tudo procura, as coisas mais fundas
onde o medo nos junta e a fraqueza aproxima,
e as mais altas tão longe da sabedoria dos homens
já em voo para o Poder de Deus,
só pela alegria, sei que há um sol de vinte e quatro quilates
aqui escondido.




