21 de outubro de 2015

Macaco Argonauta

MACACO ARGONAUTA

Hoje de manhã comi melão, bebi café. 
À hora de almoço, posso dizer sem mentir, 
o meu corpo já era parte melão e café
e todas as acumulações de tantos anos 
de melão e café e ar e água.
Um corpo é aquilo que comeu.
Não é amor, nem sei lá o quê:
não alimentes o bebé a leite materno
ou de substituição e vem-me contar se
com todo o potencial genético
de gerações de um metro e oitenta,
ele cresceu e se fez homem. Pois…
O pensamento é como o corpo
uma história de acumulações,
a memória, a informação, a criatividade
são filhas do que lembram, do que ouviram,
e viram e leram e de como organizaram
esses materiais luminosos nos recantos escuros
e com vista, ou sem, para uns e para os outros
em cadeia de realimentação.
O sentimento é o rabo dos pensamentos,
pronto, a cauda, não se ofenda, macaco argonauta,
porque vai atrás, segue o pensamento sem que
ele perceba - até as vacas produzem mais leite 
a toque de Mozart.
Se fecharmos a boca não será o pensamento de vida
que nos salva, nem o sentimento de querer viver,
e mais cedo que tarde, cheios de pensamento
e sentimento, mas de boca fechada, devolveremos à terra 
o que dela tirámos, nem que seja em cinzas.
E assim mesmo sei que sendo o meu corpo,
e ele feito disto que comi, que por sua vez se alimentou
de sol e de terra porque eu nem sol nem terra como,
e sendo as palavras, os beijos, os concertos e árias,
os músculos de mármore quente de Rodin,
sou mais do que isto e do que este corpo
porque a vida inteira na sua mecânica perfeita de Bach
e na majestade do seu caos é uma misteriosa força 
que me habita enquanto a visito.