30 de outubro de 2015

Bonjour Mundo!

Adoro isto! Não acho normal. Pior, devo ter bebido hortas inteiras nestes últimos anos. E os cafezais? Preciso de uma quinta para ser bio-sustentável, qual um T0 qual o quê...

Levantei-me e as voltas do costume. Sumo verde. Café. Janela aberta e luz a rodos para cinco gramas de sol até à chegada das nuvens. Ia fazer a minha sequência mágica como a banha da cobra, mas por não estar em dia de estica e não dobra, não fiz. Nem sequer fiquei aborrecida comigo mesma por não a ter feito – céus!, qualquer dia sou uma mulher tolerante… como é que nos vamos desabitando de quem fomos para dar lugar a outra pessoa que afinal somos nós?
O meu sonho maior era a física. Continuo a ler tudo o que apanho em palavras de gente, mas quando me falam nas línguas dos anjos, que no caso é em números, não percebo nada. Este sonho é desfasado, e sempre foi desfasado da minha natureza que é poética e nunca foi outra. O outro sonho, então, ainda é mais pateta, mas a verdade é que imagino o que seria ter nascido para ser de Shaolin ou Wudang.
Em vez de qigong, abro o email. O que tu queres, existe, mas quem tem não vende pelo preço que tu queres, escreve a minha prima. Mau Maria. Um dos agentes que contactei enviou-me fotografias. Afinal há esperança. Dois apartamentos em Lisboa. Um quinto andar perto da Sé, T0, sem elevador, sem um único varandim, de vinte e nove, sim, vinte e nove metros quadrados e sem as obras concluídas custa cento e quarenta e nove mil euros. Ao lado, outro de trinta e nove metros. Manda-me também a informação que havia pedido e mais fotografias de um T2 recuperado - não é nada de especial, aliás é todo de esquinete, mas é luminoso, o soalho é original, os tectos altos: tem noventa e três metros quadrados e custa quinhentos e sessenta mil euros.
Penso que bem podia desistir. Da física e de Wudang. Da poesia e do frete imobiliário. Mesmo do qigong e do sumo verde. E não desisto. Alguma coisa me puxa adiante. Ou alguém: penso que é o presente do meu eu futuro.

23 de outubro de 2015

O QUE EU ANDO A LER, Henrique Monteiro, hoje, no Expresso Curto



O QUE EU ANDO A LER, Henrique Monteiro, hoje, no Expresso Curto

Talvez não devesse dizer que ando a ler um livro que roubei. Mas roubei-o à minha mulher e por motivos absolutamente ponderosos: primeiro, porque é um objeto lindíssimo; depois, porque é organizado por um amigo meu; terceiro porque é, essencialmente (já explico), do Fernando Pessoa.

Vamos a factos: chegou-me um embrulho com um cartão que me é dirigido. Nele, o editor, amigo e correligionário de blogue Manuel S. Fonseca pedia-me para entregar o livro à minha mulher. Eu, bisbilhoteiro, já por ela avisado que o livro chegaria, abri-o. E que vejo: um livro magnífico com o nome de Fernando Pessoa a ocupar obliquamente toda a capa, numa edição ‘Guerra e Paz’, com pintura de Ana Vidigal, poema de Eugénia de Vasconcellos e organização e apresentação do dito cujo Manuel S. Fonseca. Já era muito. Mas quando um amigo envia um livro cujo título é “Minha Mulher, A Solidão” e cujo destaque é “Conselhos a casadas, malcasadas e algumas solteiras”, solta-se a bisbilhotice numa deriva coscuvilheira, quiçá concupiscente (algo muito tratado no volume) e começa-se a ler. E a ver, porque a pintura de Ana Vidigal lá está. Já li o texto e o poema de Eugénia, a introdução (“Toda a volúpia é mental”) do Manuel, os ‘Conselhos às malcasadas’, de Bernardo Soares (heterónimo de Pessoa) e “A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa” de Álvaro Campos (outro heterónimo pessoano). O livro é dividido em seis “cadernos concupiscentes de corpo nu”, mas duvido que avance muito antes que a minha mulher o reivindique – com razão, ficando, desde já aqui a minha autocrítica pela locupletação ou uso indevido de um livro que será lançado terça-feira que vem na Casa Fernando Pessoa, por dois Pedros – o Pedro Marta Santos e o Pedro Norton, tudo malta do blogue Escrever é Triste o qual conta, esporadicamente, com a colaboração deste vosso criado.

21 de outubro de 2015

Macaco Argonauta

MACACO ARGONAUTA

Hoje de manhã comi melão, bebi café. 
À hora de almoço, posso dizer sem mentir, 
o meu corpo já era parte melão e café
e todas as acumulações de tantos anos 
de melão e café e ar e água.
Um corpo é aquilo que comeu.
Não é amor, nem sei lá o quê:
não alimentes o bebé a leite materno
ou de substituição e vem-me contar se
com todo o potencial genético
de gerações de um metro e oitenta,
ele cresceu e se fez homem. Pois…
O pensamento é como o corpo
uma história de acumulações,
a memória, a informação, a criatividade
são filhas do que lembram, do que ouviram,
e viram e leram e de como organizaram
esses materiais luminosos nos recantos escuros
e com vista, ou sem, para uns e para os outros
em cadeia de realimentação.
O sentimento é o rabo dos pensamentos,
pronto, a cauda, não se ofenda, macaco argonauta,
porque vai atrás, segue o pensamento sem que
ele perceba - até as vacas produzem mais leite 
a toque de Mozart.
Se fecharmos a boca não será o pensamento de vida
que nos salva, nem o sentimento de querer viver,
e mais cedo que tarde, cheios de pensamento
e sentimento, mas de boca fechada, devolveremos à terra 
o que dela tirámos, nem que seja em cinzas.
E assim mesmo sei que sendo o meu corpo,
e ele feito disto que comi, que por sua vez se alimentou
de sol e de terra porque eu nem sol nem terra como,
e sendo as palavras, os beijos, os concertos e árias,
os músculos de mármore quente de Rodin,
sou mais do que isto e do que este corpo
porque a vida inteira na sua mecânica perfeita de Bach
e na majestade do seu caos é uma misteriosa força 
que me habita enquanto a visito.

19 de outubro de 2015

Presente futurante

Agora que penso nisto, vejo que é a ideia de futuro, e não o passado, que constrói o nosso presente.

15 de outubro de 2015

O Meu Governo, perdão, my precious, my precious...

Thieves! They stole It from us.... Too risky! Too risky! O Governo, perdão, the Precious will be ours once the PàFitses, ups, the hobbitses are dead!

Love comes late

LOVE COMES LATE
Há dias que começam assim,
um vizinho martela-nos a cabeça na viga do prédio,
no nervo vago, e as pancadas reverberam, avisam:
Thou fool, this night thy soul shall be required of thee.
Mas quem está à porta somos nós,
quem avisa somos nós,
clarões no escuro dos olhos.
(Nós é um eu cobarde, escondido atrás dos muitos
para não ser o único.)
Há dias que começam assim:
sabemos que perdemos o comboio onde toda a gente vai,
e virão pela nossa alma no outono curto dos dias.
E uma frase perdura na estação vazia, na linha vazia,
na luz dourada da manhã clara, como?,
e nós a vermos o inalcançável comboio a desaparecer,
incrédulos das palavras, e a frase na duração, como se nada fosse,
cheia da certeza cosmológica de Fibonacci,
desafia-nos o entendimento: love comes late.
É o nosso atraso, afinal, que nos salva.



11 de outubro de 2015

Coração de romã

Este coração de bagos de romã, perdão, rubi, da casa Verdura, do irreverente e brilhante tio Fulco di Verdura, foi uma encomenda de Tyrone Power para presentear a sua linda mulher, no São Valentim de 1942. É lindo? Ó se é... venha cá, bebé!


Acabo de comer uma romã. Cheia de sumo. Doce... Estava convencida de que as romãs este ano não seriam boas – tenho uma grande falta de instinto agrícola, está provado. Adoro romãs. E agora lembro-me. No colégio não podíamos adorar romãs. Nem cães nem gatos nem livros. Se o português é vasto porque há-de adorar, há algum culto? Então trate de arranjar um sinónimo para a sua adoração. Era assim.
Agora que posso adorar romãs, figos, bicicletas, livros, o Cão e o que mais me apeteça, não faço outra coisa. Nem quero fazer. Explico.
Estava em casa a ver cair na tv o Muro de Berlim. Na reportagem, gente para trás e para diante num movimento incessante, e um homem de regresso ao lado oriental, zás, levanta um cacho de bananas no ar. A queda do muro, naquele momento, deixa de ser uma questão de ideologia para passar a ser uma questão de mercearia. Aquele luxo, um cacho de bananas, passava-se na Europa, com um homem absolutamente normal, nem rico nem pobre.
Nunca estive na República Democrática Alemã. Para mim, essa terra de mistério fechado por uma cortina de ferro era um artifício do negócio da guerra; era conversas incompreensíveis de Comecom, que é lá isso? E, de repente, já era O Espião que Veio do Frio no filme de Martin Ritt, primeiro, e só depois o espião veio do frio no livro de Le Carré. Mais recentemente, próximo à queda do muro, a RDA materializara-se em Katarina Witt, deusa do gelo nos campeonatos europeus, mundiais e olímpicos.  E a propósito das bananas erguidas em bandeira enquanto via cair o muro na tv, recordei os lápis que furaram o ferro da tal cortina. O meu avô, uns bons anos antes, trouxera-me desse fundo interminável de matéria para literatura e cinema que era o baluarte soviético no centro da Europa, lápis de cor embrulhados em papel pardo. Os próprios lápis eram pardos. Duros. As cores esmaecidas. E eu que tinha a ideia infantil de um leste, se oriental, pois de fausto colorido e dourado a luxos czaristas…
Então. Às vezes faço isto. Não compro romãs. Compro uma romã. É a única romã. É o cacho de bananas. Abro-a. Mil bagos sumarentos em vermelho translúcido e rebrilhante com corte de pedra preciosa. Esta única romã é a matriz até dos rubis de Verdura. E é para mim.

6 de outubro de 2015

V5

- Ó Eugénia, um jipe em Lisboa... que horror! Até o Cão lhe pede de joelhos, não, isso não. - Não é um jipe, Rita, ao que parece é uma moradia, uma V5! E com porta bagagem, perdão, logradouro...

V5
Precisava do futuro, que prevejo mais despojado, agora, já. Aquele tempo em que não teremos de nos preocupar com a posse, apenas com o civilizado usufruto. Paradoxalmente, hoje, só pode viver despreocupado da propriedade quem tem um monte de dinheiro ou quem se faz asceta - não caibo em qualquer das duas categorias.
Viveria lindamente num hotel. Um malão de livros transumantes e música e filmes ao alcance tecnológico de um play, roupa para a estação. Não preciso de acumular. Nem sei como. Eu, que sempre gostei das minhas porcelanas, dos meus santos no oratório, das minhas roupas de cama, e enfim, de toda a parafernália doméstica em mínimos detalhes de milhares de pontos em meio ponto no Aubusson mais que perfeito... quem poderia supor? Eu nunca. Como me conheço mal!
Sairia, se o futuro fosse neste instante, da zona privada dessa minha casa futura, maravilhosamente insonorizada, para a zona comunitária dessa mesma casa, bom-dia aqui, bom-dia ali, yoga no telhado com vista para céu. E depois, se o dia não estivesse para bicicleta, apanharia um carro automático, sem condutor, limpo que no futuro continuarei com uma ligeira mas certa mania das limpezas, e iria ao mercado.
Porém, hoje ainda é ontem. Vasculho Lisboa por uma pechincha, em linguagem decente, um bom negócio.
Vejo e não acredito que afinal o futuro já chegou mas é diferente e o negócio é mau: um extraordinário apartamento tem vinte e três metros quadrados, vista para uma parede. Não é insonorizado. Não tem o restante espaço em uso comunitário. Aquele é todo o espaço, é tudo ali, sala, quarto, casa de banho, cozinha, arrumos, uma vida em papel milimétrico, sem um varandim e em chão de parquet – quero o meu Aubusson de volta, e todos os pronomes possessivos: o meu serviço de chá, as minhas estantes e o oratório em fogo aceso.
Acho que vou ficar a viver no carro. O porta bagagem, se lhe acrescentar uma planta envasada, é quase um logradouro.

3 de outubro de 2015

Coisas que nos afastam do fogo

COISAS QUE NOS AFASTAM DO FOGO
Não quero estar demasiado tempo,
não quero estar demasiado perto
das coisas que nos afastam do fogo.
Quando em silêncio leio na sala,
ao longe uma voz se levanta,
e se escrevo um poema outra voz
longe o canta, e liga hoje com ontem,
e já somos uns quantos, cada um
aberto na sua solidão à presença
de todos o que nela estão. 
Quantos somos aqui comigo?
Então, não quero estar demasiado perto
das coisas que nos afastam deste fogo
em redor do qual nos fizemos
homem e civilização.
O papel impresso, a textura, o cheiro das páginas,
a costura, não são uma aventura virtual,
o affair insubstancial e asséptico do pensamento online,
em linha?, sim, de montagem e até na cozinha:
a Bimby não é só uma questão prática, funcional,
é o desarranjo do individual, faz o grupo todo igual,
e assim à volta do fogo, para quê?, se fogo é espelho
e ninguém vê, a menos que o eu seja igual ao tu.
Pensamento deste, come-o tu, demonstrador de bimbys,
criador de monólogos encapotados e de espelhos de feira -
guardem-nos para quem os queira.
Bem vês, não quero estar demasiado tempo,
não quero estar demasiado perto.
E se é preciso estar só para alimentar este fogo
verso a verso, 
está bem, 
aceito.