9 de agosto de 2015

Ora, ora...

A CARNE SUSPIRA MELHOR
Sonho contigo um sonho desperto,
todo acordado,
quero lá eu saber da dinâmica dos afectos,
da diáfana fantasia,
quero o dia-a-dia
em passos concretos,
aqui uma vírgula, ali um ponto final,
corta um parágrafo,
jantamos no quintal?
já viste o preço das caçarolas Le Creuset,
não vou comprar, puseste a cebola?
Assim. O trabalho. A cozinha.
A tua boca na minha.
Cheirar-te o pescoço.
Um amor essencial
com fundamentais eu e tu,
coisa de bicho com muita alma,
coisa de pensamento e de pele,
 memória de céu aberto de estrelas
e luz e preto entre elas.
Só percebo este amor
que chega via sentimento -
amor de Adélia Prado sem Pessoa dentro. 
O amor entendimento, conceptual, não ama,
não é de palavra, mesa e cama,
é uma elaboração mental,
nem tem corpo nem tem sexo,
tem questão de identidade sexual
e discussão de género e papel,
nenhuma história de cordel,
é ali entre o eu e o eu,
uma experiência intelectual
que se partilha
via cartilha.
Ora, ora,
cartilha, não. 
A carne suspira melhor.