30 de agosto de 2015

Kindle my heart

KINDLE MY HEART
Um cavalo não pode ir em duas direcções ao mesmo tempo.
Eu também não. A ambivalência é esta pedra imóvel:
o norte e o sul encontram-se no centro: o centro é fixo.
Parece-me que toda a gente cresceu. Menos eu.
Os amigos têm filhos enormes, 
já são pessoas de nome próprio.
Têm casamentos falhados como porcelana de bisavós no louceiro -
há beleza nisto, 
e doçura, tanta, no açucareiro lascado e há voo na asa colada do bule, não vês?
Têm empregos de horários escravos que os prendem a uma vida que querem,
mas não a sonharam, e dizem não a querer, mas agarram-na com unhas e dentes
porque a querem, e a querem com a casa e o carro e a carteira 
a condizer entre si, e a condizer uns com os outros 
medidos em centímetros de igualdades e diferenças e ano de matrícula.
Também desejo uma vida assim, presa em configuração de âncora
e servida em chávena rachada.
Mas não posso ir em duas direcções ao mesmo tempo. Há quem possa.
E faça um caminho subcutâneo. Eu não. Sou um cavalo
e acima de mim só o céu claro e o céu escuro, dois incêndios
para iluminar o meu coração com o teu.
Não quero casar nem posso ter filhos e lançar âncoras 
pois tenho este Amor imperfeito, e perfeitamente feito
à minha exacta medida, a passear a sua verdade pelo meu pensamento:
um Amor assim é uma existência
ainda que não se lhe possa tocar, quanto mais lascar...
É Jonathan sem Jonathan estar. 
Está a sua ausência comigo à espera que ele chegue e me chame Adélia.
Quando ele vier, caso, e o resto de casa e carro também e até escrava poesia doméstica.
Afinal, talvez se cresça só para os outros, para os filhos e as âncoras
e o mais seja apenas o envelhecimento animal da nossa natureza.
Ou talvez se façam poemas para que se possa crescer em direcção à raiz.