26 de julho de 2015

Tens dono?

Fotografia de Maria João Cabrita

A varanda daquele prédio em frente tem quatro chaminés, cada uma delas com cinco saídas de fumo, e a caixa dos elevadores, mais um pequeno acesso para o exterior. Assim mesmo, sendo um espaço comum e atravancado, todos os dias um homem tem vindo fazer caminhadas peripatéticas em calções de banho, sem mais. Os de ontem eram azuis escuros com alguma coisa que não se percebia na distância, algo mais claro, branco ou amarelo, não eram bolas - não sei. Está nos setenta e bastantes anos, de certeza, tem uma grandíssima barriga e anda para trás e para diante de mãos atrás das costas, ao fim da tarde e depois já perto das onze e meia. É calvo. Não está moreno da praia nem é branquela por aí além.
A lua está em quarto crescente, dourada a ouro velho, nem o craquelée lhe falta, enorme, e põe-se a nascer mesmo atrás da caixa dos elevadores e depois sobe céu acima sem motor algum que a puxe nem caixa que a feche e fica ali mesmo por cima da varanda do homem tal qual a estrela de Belém. Não há reis nem pastores que venham, só eu para aquele menino Jesus velho, sem presépio nem discípulos a pisar os caminhos secretos da varanda.
Quando olho para a lua não consigo evitar lembrar-me que navegamos o espaço, ela e eu, tão peripatéticas como o homem de calções.
Também existimos para testemunhar a vida, não é? Seja a de um satélite de ouro estival ou a de um estranho. O facto é que a despeito daqueles enormes calções largos demais nas pernas para acomodar a cintura, da idade a apontar para o fim, está ali, ainda presente, o menino que a mãe teve, o rapaz do seu pai, porque isto permanece, os pais falam dos seus rapazes que são os meninos das suas mães, houve um miúdo, e sonhos, e alguém o amou. Uma família depois e agora anda sozinho na varanda.
As pessoas, como os cães, precisam de dono.