1 de junho de 2015

Síndrome de Angelina Jolie

Qualquer mulher sabe o que é a tragédia sem ter estudado os clássicos. A tragédia é um não sei se mate não sei se morra, talvez matar e morrer seja a resposta, pronto, acabou-se. Este pano grego é-nos fatal porque o diabo é hormonal e certo como um relógio suíço até quando atrasa. Ah, sim, estou a falar disso… Dir-me-á, não seja australopiteca, nós tomamos a pílula. Não, nem todas tomamos ou podemos tomar: algumas de nós somos ao natural. E nem sempre o que é natural é bom.
Estou fortemente desconfiada de que grandes momentos dramáticos e literários foram retirados ao spm. Furar edipianamente os próprios olhos é um exemplo representativo. Um homem faria lá isto? Pois sim…Nicostrata, primeira mulher de Sófocles, todos os meses tinha uns blues de não se levantar da cama e quando se levantava era um tigre, assim tipo, se não deslargas esse raio dessa peça, tão certo como me chamar Nini que te furo os olhos com este pregador, ouviste? Daí ao edipozinho e ao segundo casamento teórico, perdão, com Theoris, foi um sopro.
Ora, isto vem a propósito do humor e não da biologia feminina. Há períodos complicados na vida de uma mulher – não é um trocadilho. Um spm da alma, digamos. Ou porque casou com o homem errado. Ou com o certo o que não lhe permitiu errar bem. Ou porque teve filhos e não foi fazer um workshop de yoga em Chenai. Ou porque não teve filhos e descobriu que quer ter mas não de um homem qualquer e o pai ideal não está à mão de semear. Ou porque não aconteceu quelque chose que não sabe muito bem o que é todavia poderia ter sido. Enfim. É puta da serpentezinha da insatisfação que anda a rabiar pelo pensamento - e se a serpentezinha rumina e rumina a mesma converseta, céus, parece uma vaca!

Estou convencida de que isto é o Síndrome de Angelina Jolie. E só tem cura à Lara Croft. Quero dizer, às serpentes, corta-se a cabeça. Explico.
Anglina Jolie é linda de cair para trás desde a primeira inspiração. Tem uma profissão e sucesso nela. Desenvolveu montes de trabalho humanitário ao levar os holofotes para passadeiras pouco vermelhas um pouco por todo o mundo. E mais recentemente mostrou uma fibra do caneco - nem vou chover no molhado com detalhes. Mas não foi sempre esta mulher que é hoje, vulnerável, permeável, enquanto é forte e capaz de lidar com as adversidades, o que é só outra maneira de dizer, um referente. Angelina Jolie já passou pela fase cabelo asa de corvo e sangue do então marido ao pescoço, num pendente, e ai não sei se mate ou se morra, então é melhor matar e morrer. Depois começou a viajar para África, em direcção a outras necessidades, necessidades de outros: ao cuidá-los, cuidou-se. Cortou a cabeça à serpente.
Ser feliz é uma decisão, não é um acaso, nem é determinado pelas circunstâncias. Não se consegue andar de sangue ao pescoço armado em baby suicida quando se vive fora do próprio umbigo.
Resumido e espremido: enquanto não nos livrarmos do pendente, não podemos saber de que tamanho é o mundo, onde estamos nele, para quê. E, azarucho dum raio, não há Matt Damon, enganei-me, Brad Pitt que nos encontre: só se atrai aquilo que se é.