18 de junho de 2015

Escola de Ingratidão

ESCOLA DE INGRATIDÃO
Penso que Paulo Leminski 
queria ter sido um grande poeta.
Drummond, tendo querido ou não, é.
A palavra leva a melhor sobre a vontade
e na poesia até leva a melhor sobre o desejo.
Não se é o poeta que se quer ser,
é-se o poeta que se é, e isto basta
para a história da ingratidão.
Começa logo de pequeno:
ah, eu queria ser polícia, médico,
bailarina… Ninguém diz:
ah! eu quero é ser poeta.
Ninguém quer ser poeta como
ninguém quer ser puta,
são duas tristes profissões:
uma por defeito congénito pois
alguém se faz poeta? Não, 
poesia não é fermentar versos, 
um poeta não é um pão no forno a crescer lento, 
a poesia é uma existência, 
reconhece-se quando nos reconhece;
a outra dá-se por camilianas circunstâncias
a despeito da tretapolítica 
das trabalhadoras do sexo
com factura discriminada.
Mas a ingratidão estende-se adulta,
escrever só se pode quando 
se pode escrever por cima,
diplomatas, jornalistas, alguns, poucos, médicos
decerto por segredo de receituário e obscuros
funcionários públicos ou privados.
Quem pode ser poeta e ter carreira a sério?
A carreira é um eu muito grande, não dá espaço
à enorme poesia.
E ter a poesia assim como quem 
tem uma amante ou uma coisinha de lado?
Ninguém de letras maiúsculas.
A poesia é a mulher toda, inteira,
e se forem precisas três para fazer uma,
olha, é a vida, a única carreira legítima,
a conta da água e a da luz, os filhos para criar,
o grande amor que o tempo morde
e o ressentimento, é, foda-se, larga-me, 
vem cá, é para sempre.
Não fui promovido, que se lixe,
está aqui este poema vale bem um ano de vida,
trocava-te, sim, a ti e às outras duas,
por ele e até por um verso - a ingratidão continua.
Que não haja dúvidas: a poesia vem primeiro.
Essa Máquina de Destruição,
ver o rosto de Deus e viver sem ser profeta.
Sorte dos poetas com salvífica prosa, romance,
crónica, artigo ou ensaio, e biscate alimentício.