4 de junho de 2015

Até ao Céu

For me lips that have smiled, eyes that have shed tears
Walt Whitman, Song of Myself

ATÉ AO CÉU
Entre o meu chapéu e as minhas botas,
três noites seguidas cantou um cigano,
fora do calendário,
saetas até ao céu -
se Deus ouviu, ou não, não sei,
eu sim.
Começou sempre por volta da meia-noite,
a voz nítida atravessou o calor 
do afinadíssimo escuro e quebrou
em mil gomos o aroma das laranjeiras.
Onde está o cigano? O pomar, onde está?
Entre o meu chapéu e as minhas botas,
mas da janela não os encontro, 
nem toco no mundo fechado:
da torre só vejo o asfalto com
os seus semáforos comandantes
da incansável vida motorizada.
Está verde, verde meia-noite, 
a noite avança e o cigano, e eu.
Canta melhor por volta da uma, 
já respirou ar quente pela boca 
e o sumo de cheiro a laranjeiras 
deu-lhe sol nas cordas vocais.
Às duas, intermitentes bullerías.
Às três, a voz do cigano falha, 
é o sinal vermelho, 
noto que bebeu demais 
nos intervalos de silêncio tinto.
E ele também, e cala.
Entre o meu chapéu e as minhas botas
canta-se uma saeta enquanto tu páras
no semáforo, a mão no volante,
eu cá em cima, longe de tudo e de ti,
a convencer a carne das certezas da razão:
a unidade da alma e a sistémica da física:
somos partículas que cantam uma saeta até ao céu.
Mas isso não me consola.