12 de maio de 2015

Uma clara evidência


Os quinze anos do Manuel S. Fonseca esperavam levitar. Ri-me, claro, também porque nele me vi a mim e, numa casa que já não existe, uma estante com uma prateleira de mistérios.
Eu tinha treze anos e os mistérios eram livros sem dono nem proveniência. Tinham acostado ali, sabia-se lá quando e por que mão – foi lá que descobri o maravilhoso catálogo do barroco dos anos sessenta-setenta do século vinte. Fosse como fosse, esperavam alinhados que o proprietário regressasse a buscá-los.
Não é exactamente um segredo que tive uma esmerada deseducação: nunca me proibiram um livro ou filme, e sou grata por isso, principalmente porque a informação fora de horas é uma escola de imaginação: o mundo deixa-se moldar, é macio no pensamento.
Pois bem. Foi ali que cacei um extraordinário tratado do desconhecido. A Terceira Visão. E o autor? Nem mais nem menos do que a alma de um lama – o português é lixado -, transmigrada para o corpo de um canalizador inglês, auto-nomeado Lobsang Rampa. É preciso ver que isto se passou num tempo sem Richard Gere, antes do Dalai Lama ser uma figura da pop culture, quando o Tibete estava em silêncio nos media e a China, mao-mao-mao, vivia o rescaldo da Revolução Cultural.
Ó mundo novo: da geografia à política e com rotunda na religião! Uau, só prodígios: clarividências, levitações, yetis, reencarnações, viagens astrais, e eu muito quieta, à noite, direitinha como uma cadáver, na cama, à espera e nada do corpo astral levantar voo como um papagaio de papel preso ao corpo pelo seu cordão de prata, raios que o meu havia de ser de chumbo. Praticava à tarde, ao fim-de-semana, nem em posição de lótus, nada. Deslarga-te! Nada.
Ninguém se interessava pelas maravilhas, nem pela política da coisa... O meu avô tão pouco se dignava a indignar-se solidariamente comigo contra a invasão do Tibete, provocava-me:
- O avô gostava que os Espanhóis nos anexassem?
- Adorava!
Nem tinha qualquer compaixão pelos meus esforços científicos, um incompreensivo, ria-se perdidamente. Pior, fazia pouco de mim.
Uma manhã em que foi levar-me ao colégio quase me fez entrar pelo espelho do carro adentro. Seríssimo. Abismado. Arrependido.
- Não quis dizer nada antes para não preocupar a avó, mas parece-me que essa mancha vermelha entre as sobrancelhas, é um olho a formar-se: o terceiro olho.