12 de abril de 2015

Tem peso e ocupa espaço

Não quero a ideia de café, a experiência do café, a sensação do café, o sabor a café. Quero uma bica!

Quando era pequena aprendi: matéria é tudo aquilo que tem peso e ocupa espaço.
Quero dizer, aquele foi o mundo em que cresci, tudo tinha peso e tudo ocupava espaço. Mesmo tudo. Não havia cá imaterialidades, sequer a filosofia, coisa para tomos de quilo. Os sentimentos também se viam. Eram pretos de luto ou pretos de festa, amor era aliança, casa, filhos; alegria era brinquedos, praia. Música era discos e cinema era enorme.
Tenho muita sorte: acho que escolhi bem a data do meu nascimento. Quantas gerações poderão dizer que assistiram ao fecho de um mundo e à abertura de outro? (Se calhar era mais bonito dizer ocaso e nascimento…)
O mundo foge-me e eu com ele fujo-me também e um dia desmaterializo-me de todo. Explico.
Como sempre peguei na caneta com força, tinha um calo enorme no dedo médio da mão direita. E como escrevia com tinta permanente, andava sempre pintada num lindo tom de azul tinteiro. Há anos que escrevo no teclado, no dedo só a memória de ter escrito à mão mais limpinha do que a de Pilatos. Escrevo numa folha de pixels. Se quiser tocar-lhe, coisas aparecem no écrã porque o diabo é sensível ao toque e salta-lhe um teclado, caixas de opções, enfim, mais escolhas do que num Starbucks, inutilidades para quem bebe um expresso forte, cremoso, curto, sem açúcar e sem franchising.
Quem diz isto diz o resto. Livros no tablet. Cadernos de endereços no telemóvel. Música é streaming e televisão é um conceito a caminhar nessa mesma direcção. As cirurgias fazem-se com os médicos a milhares de quilómetros do corpo do paciente.
Ainda temos casas. Já o amor não sei se existe, mas se existir tem peso e ocupa espaço.
Não é só o movimento das placas tectónicas que nos muda a geografia do pensamento.