12 de abril de 2015

Repete. Repito


Eu andava na segunda classe. E a piada era tola e vagamente irritante. Decerto também a fiz. Mas era uma piada parva. 

- Uma senhora tinha quatro filhos, ao primeiro deu o nome Repete, ao segundo Repite, ao terceiro Repote, e ao quarto Repute. Como se chamava o primeiro filho?
- Repete.
- Uma senhora tinha quatro filhos…

E assim se repetia.


E isto por estar aqui a pensar na intimidade/promiscuidade entre a linguagem e o comportamento. Logo eu que tanto gosto de repetições, o mesmo filme, o mesmo livro, o mesmíssimo exercício, pois tudo me sabe a novo e a nunca antes, desgosto ainda mais desta repetição de primeiro filho e ela é inevitável.
Não amamos só com os nossos actos, com este ou aquele gesto, olhar, decisão. Também amamos com palavras. E a maioria de nós, ainda que esteja a amar de fresco, ama já com bolor-amor. Não inventamos uma nova expressão amorosa se o amor, por acaso, nos reinventa. Ingratos é o que somos! Explico.
Uma pessoa habituada a dizer meu amor, meu querido, minha querida, dirá ao amor que se segue, senhor que se segue, senhora, meu amor, meu querido, minha querida e tudo lhe saberá a novo e a nunca antes. Porquê? Porque não sabe encontrar a novidade repetida no rosto da pessoa querida, quero dizer, sabe mas é a jantar requentado, restos de ontem. Fastio de quem esbanja vida, um bicho feito de tempo que oferece em cada dia uma vida tenrinha em folha para viver.
Por outro lado, esse meu amado que ficou para trás, ultrapassado, essa amada, querida, querido, ficará estraçalhado, não apenas com a sua efectiva substituição na equipa do para sempre, mas também, ó raios!, com o efeito retroactivo da actual condição – amorosa, claro. Explico outra vez.
O elevado grau de permutabilidade carno-linguística, dir-lhe-á sem hesitação, ai julgavas-te especial, um coração, pois olha, meu lindo, linda, e vê que não… como tu há mais cem, um de cada vez, serial lover e killer do psico-português de afecto-alcova.
O MEC disse, eu repito, repoto, reputo: o amor é fodido.