18 de abril de 2015

Esse palácio é meu

Em verdade, sei que tenho sorte. Sorte de Psique, portanto, do caos das mil sementes por separar, tarefa impossível, fez-se uma ordem enquanto dormia; do perigo só me ficou a lã de ouro; o voo, confio-o às águias, e a beleza está, sei, vejo, em toda a parte. E porque me apaixonei pelo amor, posso saber, e sei, entre as poucas e fundamentais certezas que tenho, que o amor se apaixonou por mim e só por isso estamos sós os dois. Hoje.
E por isso sei também que o meu lugar esta vida não tem. Não tem, eu faço em cada tarefa impossível para dizer em verdade, atravessei metade do céu só para poder voltar a casa. Uma casa é um ovo. Também de intersecções temporais sem qualquer anacronismo porque todos os dias são nossos e até o futuro dos imortais.
Que quer isto dizer?
Algumas pessoas nascem ensinadas, outras aprendem com facilidade, ou dificuldade. E esta vida é para elas. Isso é bom. Tem beleza.
São vidas como o trânsito, seguem uma lógica de código de estrada, de partida, de chegada, os sinais cuidam, facilitam, previnem, por aqui não, ali sim, e o resto é a potência do motor, a adequação à estrada, o piso, a competência. Há a beleza neste tráfego de sentido obrigatório desde a maternidade à cama de pedra, família, escola, amizade, reconstrução da família original, corações que explodem, e manhãs de absoluta pureza e mesmo a tristeza orbital. É belo. Mas não foi para mim.
De nada vale insistir com a vida nem ela insistir connosco. Há o Norte interno contra a lógica do mundo que aponta o que só os nossos olhos podem ver: há o palácio depois do abismo, só sabe quem lá viveu. Então.
A minha avó dizia, esta miúda parece que nasceu acabada. Acabada queria dizer feita. Com uma ideia e um sentido. Faltava-me o que falta à infância, claro, a experiência que nos oferece obstáculos e a forma de os incendiar e de ardermos, ou de os contornar, mesmo integrar na paisagem dentro, o combustível interno e esta fonte que somos nós. As tais tarefas, a sorte de Psique.
É preciso olhar bem o impossível, olhar com as mãos, os sentidos todos acordados, e provar a qualidade da água que corre escura no lado mais calado da alma e nem por isso morrer dos seus venenos e venerar a luz daquele trânsito a partir do abismo: esse palácio é meu.