5 de abril de 2015

Então, é isto o amor?

Tazza Farnese
Estava aqui a fazer conjecturas sobre as nossas pequeninas mas terríveis hipocrisias. Na verdade, sobre uma delas. A teoria da independência e a prática da dependência. Não tem muito o que saber.
A família, na nossa cultura, tanto é a rede que protege quanto a malha que aperta, e isso não é bom nem mau, apenas nos fecha a um sentimento de comunidade e nos vincula à consanguinidade e às relações de proximidade social. Tem consequências, claro, o mérito vale pouco ao lado do sangue...
Porém a questão em que me entretinha nem era bem essa. Não directamente. Pensava em termos afectivos. Como é que nós, que vivemos com os nossos pais, fazemos um brevíssimo interregno dessa morada para logo construirmos uma família, ou seja, como é que nós, vivendo em permanente relação familiar, e próxima, temos a lata de falar dessa independência que não vivemos como um valor - não para nós, claro, que não somos cá malucos -, mas para os que estão de facto sós ou, imaturos!,  não querem estar pois foram, mais do que educados, alimentados do pensamento aos sentimentos e comportamento para ser família?
Como tantos portugueses cresci numa casa inter-geracional que é o mesmo que dizer, na casa dos meus avós, perto da casa dos meus bisavós e de todos os meus tios, os irmãos do meu avô. Durante aquela fracção de segundo em que vivi com o meu pai e a minha mãe, quando íamos para o Porto, era tudo igual, apenas com outros cenários e outros actores: todos os irmãos do meu pai, excepto ele, viviam na mesma cidade, portanto, perto uns dos outros e dos meus avós paternos.
A solidão cai-nos como um mau vestido barato e mal cortado.
Eu tenho sorte. Talvez porque casei cedo e me divorciei cedo, pude, depois, observar. Em câmara lenta. A observação muda-nos: cria um intervalo entre nós e a coisa observada. Aprende-se – não que isso sirva para muito, mas muda-nos, quero dizer, faz-nos completamente outros permanecendo os mesmos. E não voltei a partilhar uma casa desde essa juventude, ainda que tenha dito sim duas vezes, para dizer não antes de marcar a data dos dois novos casamentos que consegui evitar só porque a observação nos muda e quando observamos, vemos, e vemo-nos. Temos escolha. É uma liberdade. Perceber isto não é amor, esta não é a pessoa, esta não é a relação nem o futuro a despeito de quaisquer imagens erróneas de perfeito casal-família em cujo reflexo nos vejamos devolvidos, é uma grandíssima liberdade de ser.
Sei que não tenho a cultura nem o coração para ser só, ainda que goste da minha atípica independência. Há-de estar um muito específico amor à minha espera porque eu não quero outro, nem tão pouco a minha cabeça já se assusta e diz um sim que é não, Deus me livre. Mal comparado, há-de ser como a história do perfumador que só pôde acontecer porque cresci na velha casa dos meus avós onde coisas velhas abundavam, nada como os apartamentos da Base Alfa onde as minhas colegas viviam em actualizado convívio de elevadores partilhados e outros prodígios da intimidade com estranhos.
Em pequena, sempre gostei de quinquilharias rebrilhantes ou, na linguagem familiar, sempre tive gosto de sevilhana. Ora, um dia, entra-me pelos olhos adentro uma garrafa que estava no móvel de estimação da minha avó. A coisa era positivamente barroca, logo, era linda.
- Posso ter aquela garrafinha pequenina que está ali no seu armário?
- Qual garrafa nem meia garrafa, é um perfumador!
De facto, a garrafinha pequenina de porcelana branca, decorada à maneira da Tazza Farnese do Carracci, grinalda de frutos, maçãs, uvas, pêras gordas e Baco ao alto, as armas ao centro, e grinalda de rosas de esmalte sobre a monture do gargalo, era um idoso perfumador.
- Posso tê-lo para minha garrafinha?
Havia isto: a apropriação de leques, anéis, quinquilharias ou não, pérolas verdadeiras ou falsas, tanto me fazia, mas as coisas daquele armário não, nem abrir o armário sequer, ó criaturas intocadas, o minucioso açucareiro de cristal azul tão profundo, suspenso numa gradinha assente em quatro lindas patinhas cheias de ramicoques e que pesava, nem sei, muito, ideal para os meus chás, só lhe pequei uma vez durante a limpeza e mesmo assim, ai os meus ricos tímpanos, nem pensar, ouviu?!
Os adultos têm dias de grande mistério. A minha avó era não. Era não em regra. A minha avó era a própria regra. Mas levantou-se, rodou a chave na vitrine, e disse:
- Tome lá a sua garrafa. Eu, no seu lugar, não a partia.