13 de março de 2015

O verdadeiro Gato Maltês

Toca piano e fala marxês...

O VERDADEIRO GATO MALTÊS

Depois do entusiasmo, Varoufakis, pasma. E que bem calha à semântica que o entusiasmo seja grego, seja  ἐνθουσιασμός, seja en theos, portanto, em Deus, ou se preferir, com o divino, pois foi coisa oracular: quando as pitonisas profetizavam, estavam possuídas pelo espírito divino, quer dizer, inspiradas, tinham o sopro, o espírito dentro. Assim, mal comparado, como os profetas do catolicismo e os dez mandamentos e ai as trombetas, o fim do mundo e tal. Está bom de se ver que, sendo o cristianismo de base judaica, Deus só falava pela língua dos homens, ou seja, as pitonisas católicas são todas meninos. Fora da religião institucional, também o maluquedo, perdão, a exaltação da grandessíssima poesia nos fala desse Deus dentro, seja em Walt Whitman ou Herberto Helder, e da inspiração das musas – do latin in spirare e por causa disso, inspire, expire, diga trinta e três tágides. Enfim, derivo, adiante.

É Apolo? Uma Tágide? Irina?

Porque levou Varoufakis as sibilas ao êxtase um pouco por todo o lado? Encarna Apolo. Nem mais.

Nestes dias de feminismos gritantes, o que querem as meninas? Um Deus de serviço que se preste à idolatria, a exclamativos ahs e ohs, e Varoufakis, a Irina da política, preenche os requisitos. Mal comparado, outra vez, na falta de uma boys band para meninas crescidas, sai um ministro das finanças bronzeado para a mesa um, dois, três, quatro, prato do dia para toda a companhia.

Este culto varoufakisiano do possível apolíneo, uma maneira bonita de dizer do homem objecto, depois de se desancarem os homens pela objectificação das mulheres a propósito de tudo e mais alguma coisa, é, como direi, giro?, por desmascarar as nossas hipocriziazinhas. A gaja é boa dá direito a ordinarão, machista, estás aqui estás a apanhar com a lei anti-piropo, ó troglodita, vai-te esconder, pá! Mas quando quem é bom é um ele, o comentário à bondade extrínseca torna-se um reconhecimento de valores.

Quais valores? Fálicos. Porque é homem? Non. Quero dizer, não só, mas também. Falo do phallus grego, alado. Dos valores apolíneos, criativos. As próprias das meninas vestais, as pitonisas, castas castíssimas, estavam revestidas dessa luz de Apolo – interessante, não é?, isto da castidade ser o preço pago pelas mulheres freiras de antes ou de agora por serem as filhas, as irmãs, as esposas de Deus, as escolhidas, as feridas pelo narcisismo dos que se sabem eleitos.

O corpo, a postura, a força e a agressividade, a informalidade. Olé!

O corpo, a postura, a força e a agressividade, mesmo a informalidade que não é senão expressão de segurança, o modo varoufakisiano projecta, portanto, lança adiante a ideia do seu próprio movimento externo, dinâmico, criativo. Em suma, tanto tau-tau se deu no estereótipo que ele volta, vá, com o júbilo saudoso das hostes.

E coincidirá esta imagem do ministro das finanças grego com eficácia da acção do ministro grego das finanças? Será a sua imagem contaminada pela ineficácia da sua acção? É aqui que se vai do verbo entusiasmar para o verbo pasmar. Inevitavelmente. Ó do Yanis cada vez menos Varoufakis ao espelho dos nossos lindos olhinhos. Porquoi?

Como é que não aprova o star system? A Europa é muito perigosazinha sem estrelinhas...

Bem, por muito que desgoste de generalizações, a verdade verdadeira é que não poderíamos viver sem elas. Se os pecadilhos clássicos das esquerdas left limousine, chardonnay socialist, ou gauche caviar, conforme o continente em que actuam, são perdoáveis pelo seu carácter adolescente e megalómano, os pecados dessas esquerdas, pecados de manual, são por demais evidentes e mais cedo que tarde...

Pela parte que me assiste, e estou a contar, já são mais do que três os pecados deste gato maltês que toca piano e fala marxês. Mas fiquemos com este número que Deus fez.

PECADOS

1.     Demagogia de Lena D`Água 
P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral


2.     A culpa é tua
Elege inimigos externos para consumo interno: na ex URSS o bode expiatório, a razão dos males do mundo, o novo demónio a tentar Cristo, enfim, era o capitalismo, no caso, já foi a troika, Portugal, Espanha, a Alemanha, os Nazis. Mas ainda espero que recue na cronologia até ao colapso da fabulosa civilização grega por causa da secular seca e peça contas ao Olimpo.

3.     Falta de vista

Pessoalmente, gostei muito de ver as imagens da Paris Match e fiquei feliz por saber que a linda esposa de Yanis "gosta de estar nos braços do novo herói grego" Varoufakis – lá está, eu bem digo, Apolo e phallus e tal… Gostei do ninho de amor, do chardonnay socialista, perdão, do vinho branco, do piano, da photo ao espelho, quero dizer a ler o seu próprio livro, enfim, de tudo quanto há. Só não lhe perdoo que tenha falado e com tanto preconceito contra a Europa e contra si-mesmo, há limites para a auto-sabotagem: "eu desprezo o sistema do estrelato. É sempre o corolário de um défice democrático e de valores”. (link)