25 de março de 2015

Anita no Varão

Fidelidade
Ó que tristeza, ladrar e não morder...
A miúda da seguradora lá de baixo é um raio de um paradigma: devia ser ela em néon por cima da porta e não o cão encarnado da Fidelidade: o mundo é lixado naquilo que pede às mulheres e, no entanto, ela desliza por cima das exigências em fatos calça-casaco número trinta e quatro e em cima de doze centímetros de salto, de irrepreensíveis pestanas de seda colocadas uma a uma, a maquilhagem elaborada com inteligência cinematográfica, e o cabelo, santo Deus, penteado das nove às cinco, hora em que se enfia no seu carro de Barbie Girl in a Barbie World, um Fiat 500 Gucci imaculado por dentro e por fora.
Fica todo o dia direitinha à secretária como quem finge trabalhar, mas é mentira, trabalha que se farta, ainda por cima está na montra de vidro.
Anita fazia ballet, agora faz varão...
Anita fazia ballet, agora faz varão...
No outro dia, quando fui à manicure, reparei num estúdio de dança também ele de vidros até ao chão, e outra vez na montra, lá estava ela no primeiro varão – são três varões com vista para a rua, quero dizer, a rua tem vista para as subidas e descidas sinuosas, para as curvas perigosas de um varão a direito. Dançava bem o seu perfeito biquíni preto rematado com os sapatos em acrílico transparente de cinderela-alternadeira.
A culpa disto é muito tua, tio Fosse...
A culpa disto é muito tua, tio Fosse...
Acho que em casa deve ter uma máquina de café a toque de limpíssimas cápsulas, Nespresso, aposto, e uma Bimby às prestações.
Ups!, enganei-me na máquina... Mas não foram só as botas de Pretty Woman que fugiram para dentro dos armários das meninas, pois não?
Ups!, enganei-me na máquina... Mas não foram só as botas altas de verniz preto de Pretty Woman que fugiram para dentro dos armários das meninas, pois não?
Super-mulheres de vinte cinco, trinta dois anos, filhas obedientes, boas alunas, licenciadas e mestradas em funcionária disto e daquilo, bem cuidadas, casadas, mães, divorciadas, bailarinas de varão…
A tiger is a tiger not a lamb? De certeza? É que parecem cordeirinhos, mein herr...


A culpa disto não morre solteira, há-de ser do Marcel Marlier, do Bob Fosse e do Louboutin, um conservador e dois fazedores de revoluções sexuais que concretizam esta fantasia de lady na mesa-louca na cama – é maravilhosa a eficácia da síntese do pensamento na música pimba.
Se dos livros da Anita vem a menina bem comportada, de Bob Fosse vem a menina mal comportada. E Louboutin, formado na Folies Bergère e em bas fonds sem nome onde as bailarinas usavam com absoluta ciência os saltos, e outra vez formado na escola prática de Roger Vivier, fez como a música pimba, zás, colou as duas meninas, boa e má, tão bem coladinhas que se equilibram em agudas agulhas de sola mais encarnada do que a Fidelidade, mesmo quando o cão é sapato macaco de imitação.
Olá, menina!
Olá, vertigem!