Coisas barrocas acontecem, excessivas, e o lume alto da decadência, arranha o escuro e incendeia: sinapses, o fim das estrelas: o insuportável coração explode. A folha branca, o silêncio branco, quanto tempo para a brancura toda? Há o sol da tarde, a cinematografia perfeita, e a coreografia do regresso, sistema circulatório, cheio de vida à espera do lado de lá da porta de casa, há o sol da tarde do lado de lá, uma realidade paralela ao desamparo dos mundos. E antes ainda a noite tão preta onde enterrá-los, assim, debaixo das pálpebras, depois do cansaço vivo e então tudo branco, e um dia o sol da tarde.
A miúda da seguradora lá de baixo é um raio de um paradigma: devia ser ela em néon por cima da porta e não o cão encarnado da Fidelidade: o mundo é lixado naquilo que pede às mulheres e, no entanto, ela desliza por cima das exigências em fatos calça-casaco número trinta e quatro e em cima de doze centímetros de salto, de irrepreensíveis pestanas de seda colocadas uma a uma, a maquilhagem elaborada com inteligência cinematográfica, e o cabelo, santo Deus, penteado das nove às cinco, hora em que se enfia no seu carro de Barbie Girl in a Barbie World, um Fiat 500 Gucci imaculado por dentro e por fora.
Fica todo o dia direitinha à secretária como quem finge trabalhar, mas é mentira, trabalha que se farta, ainda por cima está na montra de vidro.
Anita fazia ballet, agora faz varão...
No outro dia, quando fui à manicure, reparei num estúdio de dança também ele de vidros até ao chão, e outra vez na montra, lá estava ela no primeiro varão – são três varões com vista para a rua, quero dizer, a rua tem vista para as subidas e descidas sinuosas, para as curvas perigosas de um varão a direito. Dançava bem o seu perfeito biquíni preto rematado com os sapatos em acrílico transparente de cinderela-alternadeira.
A culpa disto é muito tua, tio Fosse...
Acho que em casa deve ter uma máquina de café a toque de limpíssimas cápsulas, Nespresso, aposto, e uma Bimby às prestações.
Ups!, enganei-me na máquina... Mas não foram só as botas altas de verniz preto de Pretty Woman que fugiram para dentro dos armários das meninas, pois não?
Super-mulheres de vinte cinco, trinta dois anos, filhas obedientes, boas alunas, licenciadas e mestradas em funcionária disto e daquilo, bem cuidadas, casadas, mães, divorciadas, bailarinas de varão…
A tiger is a tiger not a lamb? De certeza? É que parecem cordeirinhos, mein herr...
A culpa disto não morre solteira, há-de ser do Marcel Marlier, do Bob Fosse e do Louboutin, um conservador e dois fazedores de revoluções sexuais que concretizam esta fantasia de lady na mesa-louca na cama – é maravilhosa a eficácia da síntese do pensamento na música pimba.
Se dos livros da Anita vem a menina bem comportada, de Bob Fosse vem a menina mal comportada. E Louboutin, formado na Folies Bergère e em bas fonds sem nome onde as bailarinas usavam com absoluta ciência os saltos, e outra vez formado na escola prática de Roger Vivier, fez como a música pimba, zás, colou as duas meninas, boa e má, tão bem coladinhas que se equilibram em agudas agulhas de sola mais encarnada do que a Fidelidade, mesmo quando o cão é sapato macaco de imitação.
É então isto um livro, este, como dizer?, murmúrio, este rosto virado para dentro de alguma coisa escura que ainda não existe que, se uma mão subitamente inocente a toca, se abre desamparadamente como uma boca falando com a nossa voz? É isto um livro, esta espécie de coração (o nosso coração) dizendo "eu"entre nós e nós?
Manuel António Pina, in Como se Desenha uma Casa, A&A, 2011
OS LIVROS Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para Manuel António Pina. E não foi um bom pensamento. Ficava-me bem dizer que foi por causa de um verso dele, de uma linha. Mas ele e eu não precisamos disso entre nós. Explico.
Não conheci Manuel António Pina. Fui conhecendo, poema a poema, crónica a crónica. Faz-me muito feliz ter com quem ir pensando coisas que também penso, e as outras, aquelas que sem a pessoa estar presente na nossa vida nunca nos passariam pela cabeça. Tenho muita sorte. Tenho bons poetas ao meu lado, andam, vaidosões, armados em versos pela casa toda.
Não seria melhor se estivéssemos juntos, na esplanada, a tomar café. Pelo contrário. Haveria todo aquele incómodo cheio do ruído que embrulha o pensamento, o corpo, e mesmo a vida para além do cinco sentidos. O relógio, as diferenças irreconciliáveis e, de certeza, as picuinhices enervantes que só têm beleza quando se ama de carne e osso, quando se ama assim de cama e fogão.
Só me aborreci com o Manuel António Pina uma vez. Há bondade nele - ora isso dificulta até o mau génio de uma pessoa como eu. Foi quando ele morreu. Porque me lembrei da história do almoço para as trezentas pessoas que compram livros de poesia em Portugal. Ele tinha escrito isso numa crónica. E nesse dia, de irritada que fiquei, só me apetecia atirar-lhe à cara a traição daquela reunião que não se fez e à qual não iria. Para quê? Fazer o quê? O que é que se diz a alguém de quem se gosta tanto de ler e ter à disposição egoísta na estante: leio sempre o que escreve, gosto muito, obrigada. E depois fica-se ali num constrangimento de 2 de Paus por não haver nada a acrescentar. Tudo quanto é importante não tem palavras quando lhe falta o quotidiano do convívio, o conforto do abraço. E a conversa de circunstância está aquém demais até para os tímidos.
Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para o Manuel António Pina. Com quem então trezentos?! E ele nada. E o livro do outro, cinco mil exemplares, foi-se ao ar. Nicles. E ele nada. É melhor mudar o almoço para um pavilhão para enfiar os 4700 que faltam. E ele nada. Uma paciência de santo.
Sei que ele já me perdoou por ter um humor terrível, daqueles que pega e não larga, e insiste, tão chata quando algo importante me foge e não entendo, não quero - que nervos!
Depois do entusiasmo, Varoufakis, pasma. E que bem calha à
semântica que o entusiasmo seja grego, seja ἐνθουσιασμός, seja en theos,
portanto, em Deus, ou se preferir, com o divino, pois foi coisa oracular: quando
as pitonisas profetizavam, estavam possuídas pelo espírito divino, quer dizer,
inspiradas, tinham o sopro, o espírito dentro. Assim, mal comparado, como os
profetas do catolicismo e os dez mandamentos e ai as trombetas, o fim do mundo
e tal. Está bom de se ver que, sendo o cristianismo de base judaica, Deus só
falava pela língua dos homens, ou seja, as pitonisas católicas são todas
meninos. Fora da religião institucional, também o maluquedo, perdão, a exaltação
da grandessíssima poesia nos fala desse Deus dentro, seja em Walt Whitman ou
Herberto Helder, e da inspiração das musas – do latin in spirare e por causa
disso, inspire, expire, diga trinta e três tágides. Enfim, derivo, adiante.
É Apolo? Uma Tágide? Irina?
Porque levou Varoufakis as sibilas ao êxtase um pouco por
todo o lado? Encarna Apolo. Nem mais.
Nestes dias de feminismos gritantes, o que querem as meninas?
Um Deus de serviço que se preste à idolatria, a exclamativos ahs e ohs, e
Varoufakis, a Irina da política, preenche os requisitos. Mal comparado, outra
vez, na falta de uma boys band para meninas crescidas, sai um ministro das finanças bronzeado
para a mesa um, dois, três, quatro, prato do dia para toda a companhia.
Este culto varoufakisiano do possível apolíneo, uma maneira
bonita de dizer do homem objecto, depois de se desancarem os homens pela
objectificação das mulheres a propósito de tudo e mais alguma coisa, é, como
direi, giro?, por desmascarar as nossas hipocriziazinhas. A gaja é boa dá
direito a ordinarão, machista, estás aqui estás a apanhar com a lei anti-piropo,
ó troglodita, vai-te esconder, pá! Mas quando quem é bom é um ele, o comentário
à bondade extrínseca torna-se um reconhecimento de valores.
Quais valores? Fálicos. Porque é homem? Non. Quero dizer, não
só, mas também. Falo do phallus
grego, alado. Dos valores apolíneos, criativos. As próprias das meninas vestais,
as pitonisas, castas castíssimas, estavam revestidas dessa luz de Apolo –
interessante, não é?, isto da castidade ser o preço pago pelas mulheres freiras
de antes ou de agora por serem as filhas, as irmãs, as esposas de Deus, as
escolhidas, as feridas pelo narcisismo dos que se sabem eleitos.
O corpo, a postura, a força e a agressividade, a informalidade. Olé!
O corpo, a postura, a força e a agressividade, mesmo a
informalidade que não é senão expressão de segurança, o modo varoufakisiano
projecta, portanto, lança adiante a ideia do seu próprio movimento externo,
dinâmico, criativo. Em suma, tanto tau-tau se deu no estereótipo que ele volta,
vá, com o júbilo saudoso das hostes.
E coincidirá esta imagem do ministro das finanças grego com
eficácia da acção do ministro grego das finanças? Será a sua imagem contaminada
pela ineficácia da sua acção? É aqui que se vai do verbo entusiasmar para o verbo
pasmar. Inevitavelmente. Ó do Yanis cada vez menos Varoufakis ao espelho dos
nossos lindos olhinhos. Porquoi?
Como é que não aprova o star system? A Europa é muito perigosazinha sem estrelinhas...
Bem, por muito que desgoste de generalizações, a verdade
verdadeira é que não poderíamos viver sem elas. Se os pecadilhos clássicos das
esquerdas left limousine, chardonnay socialist, ou gauche caviar, conforme
o continente em que actuam, são perdoáveis pelo seu carácter adolescente e
megalómano, os pecados dessas esquerdas, pecados de manual, são por demais evidentes
e mais cedo que tarde...
Pela parte que me assiste, e estou
a contar, já são mais do que três os pecados deste gato maltês que toca piano
e fala marxês. Mas fiquemos com este número que Deus fez.
PECADOS
1.Demagogia de Lena D`Água
P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral
2.A
culpa é tua
Elege inimigos externos para consumo interno: na ex URSS o bode
expiatório, a razão dos males do mundo, o novo demónio a tentar Cristo, enfim,
era o capitalismo, no caso, já foi a troika, Portugal, Espanha, a Alemanha, os
Nazis. Mas ainda espero que recue na cronologia até ao colapso da fabulosa
civilização grega por causa da secular seca e peça contas ao Olimpo.
3.Falta
de vista
Pessoalmente, gostei muito de ver as
imagens da Paris Match e fiquei feliz por saber que a linda esposa de Yanis "gosta de estar nos braços do novo herói grego" Varoufakis – lá está, eu bem digo,
Apolo e phallus e tal… Gostei do ninho de amor, do chardonnay socialista, perdão,
do vinho branco, do piano, da photo ao espelho, quero dizer a ler o seu próprio
livro, enfim, de tudo quanto há. Só não lhe perdoo que tenha falado e com tanto
preconceito contra a Europa e contra si-mesmo, há limites para a auto-sabotagem: "eu desprezo o
sistema do estrelato. É sempre o corolário de um défice democrático e de valores”. (link)