11 de fevereiro de 2015

A Morte da Utopia e Baladas Hebraicas

A Morte da Utopia, de John Gray, Guerra & Paz, 2008, e Baladas Hebraicas (com edição fac-similada do manuscrito), de Else Lasker-Schüler, tradução e apresentação de João Barrento, Assírio & Alvim, 2002
Há livros que se lêem aos pares – o que é bom, é melhor a dois, não é? E lêem-se assim, na companhia um do outro, por oferecerem o exercício do contraditório, por serem opostos complementares e por nos proporem entendimentos radicalmente diferentes para a mesma questão. Precisamos dos dois.
John Gray* (JG) e Else Lasker-Schüler** (ELS) confrontam-nos ambos com a ideia de religião como mediadora da realidade. Ele de forma interpretativa e analítica. Ela numa evocação estética e erótica. Um através do pensamento das ideias políticas. Outra através da poesia. JG remete o sagrado para a superstição enquanto ELS reinventa o sentimento de sagrado através da ficção religiosa: o judaísmo faz-se um lugar de encontro dos mitos bíblicos do Antigo Testamento com os de outras tradições e a fusão amorosa de todos.
AMU
Em A Morte da Utopia, JG, escritor e filósofo britânico da primeira geração de baby bommers, estabelece um paralelo entre as utopias políticas e o milenarismo cristão, vendo nas primeiras a expressão secular do segundo.
A ideia apocalíptica, portanto, e avant la lettre, de Revelação, está presente na execução da ideia da revolução francesa, do nazismo, do marxismo como na intervenção de Bush no médio oriente e na resposta deste: o triunfalismo ocidental anda de braço dado com o fundamentalismo islâmico. Como?
O novo homem, nova sociedade, nova vida surgirão depois da destruição do homem velho, da velha sociedade, do velho modo de vida. Esta violência destruidora está justificada, o que significa, faz-se justa, considerando o fim a que serve. E esse fim é tido como o bem e o bom para todos os que partilham dessa Revelação, desde o ocidente ao oriente.
Esta ideia de progresso humano, de homem novo, segundo JG, tem as suas raízes no cristianismo e foi actualizada secularmente com o iluminismo quando a fé no divino foi substituída pela fé na ciência. O progresso científico seria o motor do progresso biológico da espécie humana, bem como do progresso ideológico e mesmo moral.
O homem novo que Cristo anuncia, refaz-se eugenicamente na Alemanha nazi, na União Soviética com a teoria lamarckiana, e as experiências inter-raciais de Ilia Ivanov patrocinadas por Estaline – como a da criação do soldado perfeito através do cruzamento de humanos com macacos.
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JG defende que nos pensamos mal. Pensamo-nos como uma entidade que, segundo ele, não existe: a humanidade. Portanto, qualquer valor que elejamos como um bem comum, não o é. Elegemos a democracia, um estado laico, uma sociedade de valores liberais e a economia de mercado como um bem comum em qualquer geografia e cultura. Porém, noutras geografias e culturas um regime não democrático, um estado religioso, uma sociedade de valores conservadores, outros modelos económicos, são tidos por um bem comum.
Este conflito entre duas Revelações distintas é super-evidente hoje: de um lado temos o Isis, do outro lado as democracias ocidentais num “choque de fundamentalismos”. Mas se não existe a humanidade, o que existe? O indivíduo. E num lugar mais alargado, a família. Seremos assim, e pela sua voz, uma pluralidade indivíduos com necessidades plurais conflituantes, iludidos, sujeitos a uma vontade doente e a deficiências de julgamento.
Inaugurámos, escreve JG, um século temperado de desastres ecológicos, que oscilará entre uma ordem repressiva, secular ou religiosa, e a anarquia; e pelas guerras pelos recursos naturais sustentadas por uma tecnologia cujo espectro de destruição é indizível e onde a “perspectiva civilizadora” está perdida.
Else Lasker-Schüler, escritora nascida em 1869 e falecida em 1945, poeta, autora d` As Baladas Hebraicas, é uma ficção totalizante onde se inclui a ficção da sua própria identidade e biografia, ela é o Príncipe de Tebas, o índio Jaguar Azul, a poeta, o corvo, Princesa… de tal forma que só nos anos setenta do século passado se soube que nascera em 1869 e não em 1876.
BH
ELS abre-nos um espaço poético e lírico indiferenciado, onde exclui o profano porque tudo da vida é sagrado - na sua poesia, tão sagrado é Novalis como Abraão. O eu não existe sem o tu, e muito menos sem o nós. Todas as diferenças que ferem o indivíduo desaparecem na união mística e amorosa do humano regressado à Origem. Como no poema Reconciliação: Não faz meu coração fronteira com o teu?/ O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces./ Será noite de reconciliação,/ Se nos dermos a morte não virá.
E nem por isso este mundo poético, este Oriente de Deus onde os orientes se fundiram, onde o judeu se deita com o árabe e o cristão, rompe a fantasia para se tornar uma aspiração. O sonho é vivido e escrito como a mesma realidade dos dias. Assim, não é aspiracional ou fundamento de qualquer utopia, é uma outra verdade: o sonho é a vida, e como afirma no romance Der Malikagora já só sonhamos sonhos bíblicos. Estes sonhos também pertencem à categoria da Revelação. Mas sob a influência de Eros, são arte poética, não são arte política.
Os versos de ELS procuram o mundo divino dos inícios, as palavras convocam imagens poderosas para seu veículo, e a própria poeta é descendente do Homem Bíblico, aquele que permite este chegar à luz pela palavra.
O mundo poético das Baladas é o lugar do paraíso reencontrado onde todas as reparações foram feitas, não porque tal possa acontecer, mas exactamente porque não pode, porque somos errantes no mundo, como errante foi ELS, da Alemanha à Palestina.
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* Tem aqui mais JG muito bem contado pelo nosso Pedro Bidarra.
http://www.escreveretriste.com/2015/02/e-uma-especie-de-fadismo/
** Para além sublinhar a bela e boa apresentação de João Barrento, deixo-lhe um livro e um site muito recomendáveis para saber mais sobre ELS, vida e obra.
Calvin N. Jones, The Literary Reputation of Else Lasker-Schüler: Criticism 1901-1993.  Columbia, S. C.: Camden House, 1994
http://project.arts.ubc.ca/els-bib/English.html