28 de fevereiro de 2015

A alegria gay dos rapazes

As flores de testosterona...

Há uma alegria gay nos homens – não, não é um pleonasmo. Homem que é homem é, invariavelmente, como direi, mariquinhas. Sempre foi. Está aí a história que não me deixa mentir. Desde os registos da antiga Grécia, folgosa e descontraída, outros tempos, onde era naturalíssimo que os rapazes se amanhassem entre si, e com um homem mais velho e experiente nessas coisas de sexo e sociedade e tal, um gosto que eram fortemente aconselhados a perder quando casavam, mas se o perdiam ou não, não sei, não estava lá, não vi.
O que vejo é que os homens, em particular aqueles que enchem o estereótipo do homem primitivo, perdão, perdão, queria dizer corporativo de alto lá com o charuto*, gostam e não é pouco de estar com outros homens, retiram verdadeiro prazer desse convívio. É certo que dão uns abraços que mais parecem umas valentes porradas e não se sentam ao colinho uns dos outros, e são um bocadinho, e agora vou exagerar, homofóbicos para poderem gozar tanto e em segurança dessa companhia uns dos outros.
Porque raio digo tal coisa alegre? Por duas ou três razões ou mesmo irrazões. E porque a epigenética e a estatística o explicam, acho, mas não juro que não sou cientista, olhe, sou achista…
Quase a despropósito - não fosse o escrevo adiante: já reparou que no universo da infidelidade conjugal que não tem por objectivo terminar o casamento, antes mantê-lo, a mulher tende para o marido da amiga – ok, pronto, e para o colega de trabalho -, enquanto o homem prefere a variedade do que vem à rede ou a relação sexual sem intimidade e, muito importante, sem amigos ao barulho?
A mulher, e a serpente no paraíso já o sabia, quer o que os olhos vêem. Não, não são olhos no sentido masculino.
Para os homens, o sentido da visão é determinante para o desejo, você sabe, aquilo da mulher gira e boa é um grande isco para a rapaziada, depois a conversa é outra, mas a conversa começa com o que lhes entra pela retina e abre o apetite. Enfim, um mistério da biologia, este, que permite aos meninos comer com os olhinhos. Para a mulher o atractivo está no que vêem. Mais do que bíceps, para a mulher habituada nos tempos mais duros da nossa existência caçadora-recolectora a contar com a protecção do homem durante a gravidez e após o parto e quando as crianças eram dependentes, o atractivo é sistémico. A vida é difícil para os homens… Explico.
As mulheres não preferem o homem mais bonito. Nem o homem mais rico. Preferem o homem mais capaz, mais competente, seja a caçar bisontes, matar inimigos ou a prover melhor habitação. Porque a mulher sabe que quando está grávida, ou tem um bebé, está vulnerável.
Claro, os tempos mudaram nos últimos milhares de anos. Mas as grandes mudanças são muito recentes, têm cento e tal anos, a pílula contraceptiva é de 1960, o estado social é de ontem, e a paridade salarial está no discurso de Patricia Arquette por não estar onde deve. Resumido: as nossas células ainda estão a descobrir a mudança, ainda estão desenhadas para a sobrevivência, lembram-se da fome, do medo, da morte. E evitam-nos. Ora, isto deixa um grande número de homens a pensar que vale pouco ou que as mulheres são umas boas cabras. Não é grave. É mais ou menos o mesmo o número de mulheres que pensa que não é suficientemente bonita para acasalar bem e sonha com maminhas de silicone. A relações têm quase sempre simetria - azarucho do caneco não podermos responsabilizar terceiros, não é?
E o que tem isto a ver com a mariquice bonita dos meninos? Enquanto as mulheres nossas antepassadas estavam fisicamente mais frágeis, a maternidade e tal, os homens tinham de ser mais eficientes quer a caçar quer a proteger. A sua acção era voltada para fora, para o mundo. E em grupo de homens – experimente lá a ir caçar bichezas de grande porte que andam em manada, sozinho e com uma lança… vê?
Mais. No nosso rico cérebro, o prazer e o perigo estão arrumados por junto. É um lindo cocktail químico. E com quem é que os homens corriam mais perigo? Com os outros homens. As células lembram-se e os estímulos não mudaram assim tanto, temos o mata esfola empresarial, o desporto de vencer ou perder… As mulheres tendem a ter relações duradouras com outras mulheres com quem repliquem os papéis mãe-filha pelas mesmíssimas razões. Com quem é que elas podiam contar quando a rapaziada saía para caçar e o diabo a quatro?
E isto vem a propósito de quê? Ouvi uma coisa genial: Deus perdoa tudo. O homem perdoa algumas coisas. A natureza não perdoa nada nem aceita reclamações.
É verdade, pelo menos desde o Novo Testamento, Deus perdoa tudo. A natureza é amoral, portanto, não tem sequer o que perdoar. O homem perdoa algumas coisas, e a algumas pessoas, as que, com o perdão, aumentam o seu poder. As mulheres perdoam mais do que os homens e menos que Deus porque, paradoxo, a mulher é da natureza da natureza  e sabe-o mesmo nestes tempos da pílula que a libertou desse jugo – agora pode não sofrer com as sucessivas gravidezes, mas sofre da infertilidade que a vida professional exige. Não é da natureza da mulher perdoar, mas é da natureza da maternidade total protecção - uma forma radical de perdão, não é? E os homens, ai os homens, essas flores, também são nossos filhos.

*Lembra-se de quando o tio Freud afirmou que por vezes um charuto é apenas um charuto? Pois, desculpas teórico-prático-projectivolailailai. Olaré se um charuto não é coiso e não sei quê supra implicito-descrito.

24 de fevereiro de 2015

O tempo certo, afinal...


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Toda a gente sabe que em Fevereiro os morangos não estão capazes pela simples razão de que não estamos a meio de Março. É assim. Com tudo. Há o tempo disto e o tempo daquilo e até o tempo de coisa alguma. E esse é o tempo certo.
Mas vi-me com dois quilos de morangos fora da época - e agora mais dois. Fazer o quê? O mesmo que se faz na vida: trabalha-se o que não se pode para que se possa - é a puta da alquimia, serve para tudo como a banha da cobra. Possa quê? No caso, comer. Olhe, compota. Basta água, açúcar moreno, sumo de limão e casca de limão; tiram-se os pés e as partes verdes/brancas dos morangos e cortam-se em bocados, junta-se à calda. Acrescenta-se Lambrusco - doce. Quantidades? Sempre menos de metade do peso da fruta em açúcar, água a cobrir. E de limão?, um fio, de Lambrusco, vá, um cálice. Não esqueça a baunilha. Mexa de vez em quando.
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Quando reduzir e estiver pronto há-de dar um frasco e meio destes. Sirva com um folhadinho de Brie ou Camembert com pimenta preta. Ou com biscoitos de manteiga. Torradinhas. E o bem que sabe o tempo errado...
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18 de fevereiro de 2015

Quanto do amor é atenção?

QUANTO DO AMOR É ATENÇÃO
O vento mais leve
gentil brisa
o sopro
entre os lábios
que arrepie
da nuca aos mamilos
sente-se
A aragem fina
quase doce
quase morna
do fim de tarde e
uma praia inteira
sente-se
Sente-se a mais ínfima mudança
na disposição do amante
Quanto do amor é atenção?

13 de fevereiro de 2015

Happy at heart

Claro que o meu maior sonho não se realizará: não vou acordar mestre em Shaolin ou Wudang. Por outro lado, tenho uma alegria, penso que infantil e absoluta, com as impraticáveis artes marciais de ecrã - são a minha consolação ali ao ladinho do meu rico Steiner, do meu Borges, do meu... meus queridos todos.
Estou sempre à espera que isto me passe, e a troika e tal, e ai a minha vida, qualquer coisa que me dê uma credibilidade cínico-depressiva, enfim, um estado do humor mais compatível com o mundo intelectual. Qual o quê. Nada. Nicles.
Culpo a meditação, o qi gong e a cabrinha da yoga que está cada vez mais bonita por causa da prima Stella McCartney.
E um dia destes, se o qi me continuar a correr bem, começo a treinar para a meia maratona - posso não acordar mestre em Shaolin ou Wudang, mas palpita-me que adorava celebrar o meu 50º aniversário a correr uma maratona inteira e preciso de uns aninhos de treino para chegar à meta.

11 de fevereiro de 2015

A Morte da Utopia e Baladas Hebraicas

A Morte da Utopia, de John Gray, Guerra & Paz, 2008, e Baladas Hebraicas (com edição fac-similada do manuscrito), de Else Lasker-Schüler, tradução e apresentação de João Barrento, Assírio & Alvim, 2002
Há livros que se lêem aos pares – o que é bom, é melhor a dois, não é? E lêem-se assim, na companhia um do outro, por oferecerem o exercício do contraditório, por serem opostos complementares e por nos proporem entendimentos radicalmente diferentes para a mesma questão. Precisamos dos dois.
John Gray* (JG) e Else Lasker-Schüler** (ELS) confrontam-nos ambos com a ideia de religião como mediadora da realidade. Ele de forma interpretativa e analítica. Ela numa evocação estética e erótica. Um através do pensamento das ideias políticas. Outra através da poesia. JG remete o sagrado para a superstição enquanto ELS reinventa o sentimento de sagrado através da ficção religiosa: o judaísmo faz-se um lugar de encontro dos mitos bíblicos do Antigo Testamento com os de outras tradições e a fusão amorosa de todos.
AMU
Em A Morte da Utopia, JG, escritor e filósofo britânico da primeira geração de baby bommers, estabelece um paralelo entre as utopias políticas e o milenarismo cristão, vendo nas primeiras a expressão secular do segundo.
A ideia apocalíptica, portanto, e avant la lettre, de Revelação, está presente na execução da ideia da revolução francesa, do nazismo, do marxismo como na intervenção de Bush no médio oriente e na resposta deste: o triunfalismo ocidental anda de braço dado com o fundamentalismo islâmico. Como?
O novo homem, nova sociedade, nova vida surgirão depois da destruição do homem velho, da velha sociedade, do velho modo de vida. Esta violência destruidora está justificada, o que significa, faz-se justa, considerando o fim a que serve. E esse fim é tido como o bem e o bom para todos os que partilham dessa Revelação, desde o ocidente ao oriente.
Esta ideia de progresso humano, de homem novo, segundo JG, tem as suas raízes no cristianismo e foi actualizada secularmente com o iluminismo quando a fé no divino foi substituída pela fé na ciência. O progresso científico seria o motor do progresso biológico da espécie humana, bem como do progresso ideológico e mesmo moral.
O homem novo que Cristo anuncia, refaz-se eugenicamente na Alemanha nazi, na União Soviética com a teoria lamarckiana, e as experiências inter-raciais de Ilia Ivanov patrocinadas por Estaline – como a da criação do soldado perfeito através do cruzamento de humanos com macacos.
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JG defende que nos pensamos mal. Pensamo-nos como uma entidade que, segundo ele, não existe: a humanidade. Portanto, qualquer valor que elejamos como um bem comum, não o é. Elegemos a democracia, um estado laico, uma sociedade de valores liberais e a economia de mercado como um bem comum em qualquer geografia e cultura. Porém, noutras geografias e culturas um regime não democrático, um estado religioso, uma sociedade de valores conservadores, outros modelos económicos, são tidos por um bem comum.
Este conflito entre duas Revelações distintas é super-evidente hoje: de um lado temos o Isis, do outro lado as democracias ocidentais num “choque de fundamentalismos”. Mas se não existe a humanidade, o que existe? O indivíduo. E num lugar mais alargado, a família. Seremos assim, e pela sua voz, uma pluralidade indivíduos com necessidades plurais conflituantes, iludidos, sujeitos a uma vontade doente e a deficiências de julgamento.
Inaugurámos, escreve JG, um século temperado de desastres ecológicos, que oscilará entre uma ordem repressiva, secular ou religiosa, e a anarquia; e pelas guerras pelos recursos naturais sustentadas por uma tecnologia cujo espectro de destruição é indizível e onde a “perspectiva civilizadora” está perdida.
Else Lasker-Schüler, escritora nascida em 1869 e falecida em 1945, poeta, autora d` As Baladas Hebraicas, é uma ficção totalizante onde se inclui a ficção da sua própria identidade e biografia, ela é o Príncipe de Tebas, o índio Jaguar Azul, a poeta, o corvo, Princesa… de tal forma que só nos anos setenta do século passado se soube que nascera em 1869 e não em 1876.
BH
ELS abre-nos um espaço poético e lírico indiferenciado, onde exclui o profano porque tudo da vida é sagrado - na sua poesia, tão sagrado é Novalis como Abraão. O eu não existe sem o tu, e muito menos sem o nós. Todas as diferenças que ferem o indivíduo desaparecem na união mística e amorosa do humano regressado à Origem. Como no poema Reconciliação: Não faz meu coração fronteira com o teu?/ O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces./ Será noite de reconciliação,/ Se nos dermos a morte não virá.
E nem por isso este mundo poético, este Oriente de Deus onde os orientes se fundiram, onde o judeu se deita com o árabe e o cristão, rompe a fantasia para se tornar uma aspiração. O sonho é vivido e escrito como a mesma realidade dos dias. Assim, não é aspiracional ou fundamento de qualquer utopia, é uma outra verdade: o sonho é a vida, e como afirma no romance Der Malikagora já só sonhamos sonhos bíblicos. Estes sonhos também pertencem à categoria da Revelação. Mas sob a influência de Eros, são arte poética, não são arte política.
Os versos de ELS procuram o mundo divino dos inícios, as palavras convocam imagens poderosas para seu veículo, e a própria poeta é descendente do Homem Bíblico, aquele que permite este chegar à luz pela palavra.
O mundo poético das Baladas é o lugar do paraíso reencontrado onde todas as reparações foram feitas, não porque tal possa acontecer, mas exactamente porque não pode, porque somos errantes no mundo, como errante foi ELS, da Alemanha à Palestina.
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* Tem aqui mais JG muito bem contado pelo nosso Pedro Bidarra.
http://www.escreveretriste.com/2015/02/e-uma-especie-de-fadismo/
** Para além sublinhar a bela e boa apresentação de João Barrento, deixo-lhe um livro e um site muito recomendáveis para saber mais sobre ELS, vida e obra.
Calvin N. Jones, The Literary Reputation of Else Lasker-Schüler: Criticism 1901-1993.  Columbia, S. C.: Camden House, 1994
http://project.arts.ubc.ca/els-bib/English.html

2 de fevereiro de 2015

O coração do poema

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
(...)
 de Jorge de Sena in Ode ao Destino

O coração do poema
Os poemas têm coração: é um facto orgânico na biologia das palavras. E não interessa ao poema, se o poema nos ganha ou nos perde no primeiro verso - o poema está-se lixando para isso. O poema é como o amante apaixonado: só quer o seu leitor, o seu interlocutor, pois sem ele, como existiria? O poema precisa de ouvir bater o próprio coração na pulsação do seu leitor, naqueles melhores olhos que o lêem e dizem, existes, és para mim.
Quando o leitor vê vida na página impressa, toca o coração das coisas, quais letras?,  que é lá isso de signos?, é vida: o verdadeiro Fiat!  não é o do poeta, é desse interlocutor, desse amante, o leitor.
Por muito que um poeta ofereça a sua voz para dizer da configuração das horas, da nova cartografia da alma, ou só para a descrição dos bagos de romã, mistério de vidro carnal, de nada vale essa voz e é-se mudo como a pequena sereia e tem-se o mesmo lugar mundo: não há lugar no mundo se o coração do poema não cabe na minha mão ou na tua – fica do lado de fora dos portões da cidade platónica.
Não interessa se o coração do poema bate num só verso, se é no primeiro ou no segundo, ou se é um coração flutuante na água primordial de onde um dia emergimos Homo Poeticus e corre em cada letra. Nem interessa se bate só no último verso, aquele fim de linha onde a fala expira, o abismo espreita, o alfabeto se desfaz em espaço em branco, e se corta a ligação e aprende que é de olhos na morte que se soletra a vida.
O coração do poema inventa a duração na escassez: um minuto é tudo quanto temos para viver: Destino: desisti, regresso, aqui me tens.