18 de janeiro de 2015

Toma este vals: de fabrica mundi


DE FABRICA MUNDI

Escuta. 
Nada do que desejei aconteceu:
metade de mim ficou para trás,
uma semente de força esmagada.

Escuta. 
Não desejo nada. Sei.
Toma este vals.
Amo-te. Amo-te. Amo-te.
Inclinaste-te para mim.
Estou escrita no livro:
primeiro nem me vi
na valsa da boca fechada
com que Lorca me dançou
encostada ao ombro
onde a morte soluçou.
Depois, inclinaste-te para mim.
Nem saberia desejar a perfeição
das abóbadas celestes,
e ainda ontem em sonho me deste
uma cúpula azul,
à esquerda, a ursa menor,
e a estrela polar ao centro,
debaixo desse céu e dentro,
alinhada a prumo no exacto ventre,
sólida na terra ao centro,
estava feliz só de contemplar
a porta dos mundos, a estrela polar.

Inclinaste-te para mim.
Soube-o antes de o saber
por São Vitorino de Pettau,
inclinaste-te para mim:
primeiro não, depois sim.
Toma este vals.
Amo-te. Amo-te. Amo-te.
A todo o teu leão de vitória
abres o peito de dor
e ele derrama o sangue
para dote da sua esposa.
De todo o teu leão  de vitória
fazes cordeiro por amor.
E é o cordeiro que desceu ao inferno
quem levas ao céu.
Escuta. Sei. É assim.